Pesquisar este blog

14 de set de 2012

Hospício da Poesia 1: Passarinhos falantes _ por Lucas Gonzaga








por Lucas Gonzaga

 

“Aliás, que estou dizendo? É isso que todos fazem: vangloriar-se de suas doenças, e faço-o, talvez, mais do que todo mundo”   _ personagem de Dostoiévski no livro “Notas de subsolo”

Dizem que eles assobiam,
Que eles cantam,
Mas faz é tempo
Que não ouço
Um passarinho
A cantar.

Ultimamente não os ouço cantando, dizem que eles estão cantando, mas os ouço mesmo é falando. Os passarinhos falam comigo. Eu digo “Ô de branco, o pardal ali na árvore naquele espaço de liberdade, fora dessas rudes grades, grades de tétano. Olha ali moço de branco!, já não cantam, estão falando!”

Eu os ouço falando,                          
Quem vai me contradizer?
Os tais homens de branco?  
O que tem eles a dizer?
Dizer que me conhecem,
Que sou louco,
Desvairado,
Isso não vale,
Pois quem conhece
A loucura
Vivendo-a
É quem pode dizer.


E estou lhes informando
Os pássaros falam comigo!
Eu os ouço, eu os ouço.
E falam a mim
Coisas belas e sublimes,
Dizem que nos telhados
Do hospício, as folhas ventam
E os ventos folham!
Os pardais estão falando,
Gritando a mim,
Que há liberdade no telhado.
Há liberdade não dentro do hospício, 
Mas fora dele, em cima!

E é para lá que quero ir, para o telhado. Os de branco estão de olho, já sabem que quero ir para o telhado. E os de branco não gostam de liberdade, nos privam dela, não querem deixar que eu vá para o meu local de redenção, o local que os pardais me disseram ser, o local de liberdade.

Telhado vento,
Abóbora vento,
Vento abóbora,
Folhas secas,
Secos telhados!

Ah! Que dia belo aquele em que subi para o telhado. Que sorriso meu em meio ao local de lágrimas. Mas eu estava acima das lágrimas, estava no telhado, estava na liberdade. Estavam todos os amigos meus no pátio do hospício, no pátio da ignomínia, felizes, gargalhando de contentes por me verem, por saberem que cheguei, por saberem que venci a vigilância, que estou na liberdade.

E já os de branco é que começam a gritar,
“Suicida, suicida! A ele temos que pegar!”
Eu andava e pulava no telhado,
Pulando erguia os braços,
Cantando no telhado,
Dançando na liberdade.
Que fulgor, que momento transcendental.
Foi assim que comecei meu dia,
Meu dia de liberdade,
O meu dia, meu dia que tornava
Marcante e a atenção chamava
De todos, de toda cidade!

Os de branco diziam “Calma, calma!”
Está vendo, eles é que são loucos,
Quem é que disse que não estou calmo?
Poderia haver um momento
Em que eu estivesse mais sereno que este?
Essa minha serenidade
Que fazia-me flutuar em movimentos dançantes,
A deslizar por este telhado.
Ao mesmo estou eufórico, feliz, calmo... calmo, tudo junto, numa sinergia empolgante,
Pois apareço agora na televisão, aos de toda a cidade,
Estou naquele local onde todos os pardais disseram,
Que iria eu, encontrar a liberdade.

Lá, foi lá mesmo
Que a liberdade encontrei.
Num descuido pequenino
Escorreguei, escorreguei.
Fiz de um deslize
Um salto,
Um salto para á vida.

Estavam certos os passarinhos.
Encontrei enfim a liberdade.
Todos viram meu salto,
Meus amigos ditos loucos,
Riam, olhavam e aplaudiam,
No entanto era drama que faziam
Os “normais” da cidade.

Melhor morrer livre
Que viver enclausurado,
Trancafiado, enjaulado...
Melhor não existir, que subsistir sedado.
E à liberdade eu fui,
Com ela encontrei-me
E em tão pouco tempo
Ma a tendo conhecido,
Já estava abraçado.
Foi assim que mergulhei.
Na liberdade, agarrado,
De encontro para á vida,
Fugindo do hospício,
De cabeça ao chão,
Na liberdade entrelaçado,
Tornando-me um com ela,
Misturando ao meu redor,
Todas as cores da aquarela.

E adivinham?
Enquanto de cabeça
Ao chão ia,
Com meu corpo sendo vibrado
Por um corrente de paz,
Consegui escutar
Um canto bonito,
Tranquilo, cintilante.
Os sabiás e pardais azuis,
Meus amigos,
Meus mentores de liberdade,
Voadores da luz:
Já voltaram a assobiar.
Não mais falam,
Voltaram a cantar.

É a liberdade que inspira
O canto dos sábios,
Foi o que me disse o sábio sabiá!

1 Comentários:

Thaís Villalba disse...

Mais do que nunca concordo com isso, tenho vivido isso!!! Estou encontrando a tal liberdade!!!!! o tal espírito real do viver.......... do vento, do ar!!!!!!!!!!! do amor.... da luz!!!! Como me encantou!!!!!! Como ilimuniou meu dia hoje!!!!!!!!!!!!

Melhor morrer livre
Que viver enclausurado,
Trancafiado, enjaulado...
Melhor não existir, que subsistir sedado.
E à liberdade eu fui,
Com ela encontrei-me
E em tão pouco tempo
Ma a tendo conhecido,
Já estava abraçado.

É a liberdade que inspira
O canto dos sábios,
Foi o que me disse o sábio sabiá!

Postar um comentário

Related Posts Plugin for WordPress, Blogger...

Seguidores


Mais Jogos no Jogos Online Grátis - Jogos de Meninos