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30 de abr de 2012

A volta da jangada minha_ por Lucas Gonzaga







por Lucas Gonzaga

Minha jangada, pobre jangada que tanto estimei. Vinha a mim, declarávamos amor um ao outro. Minha jangada sentia-se bem em me conduzir, em meu peso sobre ela... E eu, amava deitar nela sobre os rios espessos. Nossa, sentia-me abraçado por minha jangada e ela por mim. Fiz de tudo para torná-la um barco, mas não tinha recurso. Foi assim que separamo-nos.

Minha jangadinha linda pôs-se a achar que se não conseguia torná-la numa linda barca de madeira, que era porque não amava. Foi quando veio o lenhador, forte e robusto, posando de belo, com sua conversa encantadora. Disse a ela que viajariam juntos por todo o mundo, que deve dar valor a quem valor dá a ela.

Transformou-a o lenhador, ornamentou-a. Que linda, que linda! Nunca mais verei minha jangadinha que tanto amei, que tanto estimei, que para mim tudo era! Foi-se ela rio a fora, de encontro ao mar com seu novo companheiro, o lenhador.

Mudei, olhava a relva robusta, as flores pomposas, o rio exuberante, o céu azul que cobria nosso amor e chorei. Decidi que não mais poderia ficar ali, tudo a ela lembrava. Fui para a cidade grande: melhor conviver na cidade cinza que no paraíso que me recordava minha linda jangada. Fiz as malas e fui a Lisboa, fazer vida nova, conhecer gente nova. Nunca mais jangada nenhuma na minha vida, tão somente se fosse aquela minha jangadinha, aí sim.

No banquinho de cimento de uma praça, olhava Lisboa, o trabalho dos comerciantes, a arte da cidade, acabou que meio veio à lembrança de quão macia era minha jangada. Minha jangada e nossa casa que era a floresta, nosso leito de amor, no rio frio ao sol quente, sim, era arte divina. Mas agora estava eu olhando a arte dos homens, aquela cidade, sentado eu no banco duro de cimento. Fui olhar ao mar, virei-me devagar... Grande mar! Cruel, fúria plena!

Avistei, muito longe, solitário, um caco. Era madeira. Invadiu-me a alma o canto dos deuses, momento áureo de luz, um ar diferente sem minha permissão tomou-me o peito, o estufou criando forças jamais sentidas, era o poder do amor apoderando-se de mim em sua totalidade, fazendo-me lutar com a mais tenridade do meu ser, numa dialética perfeita: explosão! E como não tivesse controle do corpo meu, pulei ao mar, mesmo sem saber nadar nadei. Todos de Lisboa amontoaram-se a fim de me ver nadar no nada do mar gelado. Gritava ao povo: É minha jangada, é minha jangada linda! Mas o povo não via nada, a não ser apenas cacos de madeira espalhados pelo mar. Peguei todos que pude. Minha lágrima misturava-se a água do mar, que aos poucos acalmava-se. O sol que estava por detrás das rudes e sombrias nuvens, agora, iluminava toda Lisboa.

O sol parecia-me mover, me convidava. Colhi os cacos, reuni-os num saco e segui o sol. A cidade me seguia, o padre agradecia a presença de Deus, a volta do sol, o renascer da doçura, o entrar da primavera. E fui, quilômetros a fio, milhas e milhas, sem dinheiro, a pé, voltando a minha floresta, carregando no colo os cacos de minha jangada. Vou reconstituí-la. Disse-me ela que o lenhador com seu machado avilto-a e, despedaçada, foi jogada ao mar por aquele ludibriador.

A natureza conspirava a nosso favor, estava tudo perfeitamente sincronizado, harmoniosamente a espera de nós: o fulgor do sol permanecia sobre nós, não mais havia algoz, somente paz, só nós. Linda, ela novamente linda e comigo, choramos juntos. Ela pediu-me que eu me amarrasse sobre ela e assim fiz. Amarrei-a em mim e eu nela. Nós, na eternidade dos rios, sombreando as paisagens das bacias, olhando o pular dos peixes, o verde da relva, apreciando o sol que deixa tudo iluminado, nada foge, nada dele se esconde. O sol com sua luz, o deus da verdade, tudo era vista. Só não era mais visto a ambição do prazer barato da jangada. Com o tempo, e somente com o tempo, com muita luta, tornei-a numa linda barca...

1 Comentários:

Thaís Villalba disse...

vc mais do que nunca toca as pessoas... mexe com a alma..... faz vir os melhores sentimentos!!!!!!!!!!!!!!

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