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30 de abr de 2012

Avenida traição, nº 171_ por Lucas gonzaga







 por Lucas Gonzaga

Respingados de lama na bermuda preta, meio folgada ao corpo. Lama que vem do caminhar brusco e desesperado, do ônibus que passa sem perceber o transeunte choroso. Pés feridos, descalços. Ferida se abriu no pé esquerdo, sangue escorrendo, sandália em uma das mãos, pasta na outra e o guarda-chuva tão mal orientado quanto ele naquela avenida sem fim.

Quão inconstante está os relevos deste caminho! Parece que o vento passou e trouxe pedras pontiagudas, rios poluídos, vegetação perigosa. Vendaval passou? Destruiu? Foi avassalador, deixou tudo fora do lugar e ainda trouxe novos objetos Parece ser. Este caminho tinha identidade, conhecia-a ponta a ponta, agora perco-me em sua escuridão, em seus devaneios, deparo-me com seus novos habitantes mau-encarados. Fácil era antes passar e passear por ela. Perdi-me, perdi-me mesmo. Tenho a impressão de que nela morrerei, de que não chegarei a seu fim. Irreconhecível que está!

Antes bosque verde, pássaros neste doce caminho, pureza. Agora tornou-se a avenida do terror. Bem que percebi que estava mudando, mas mesmo assim resolvi caminhar por essa avenida e quanto mais adentrava, mais percebia o hades que tornou-se.

Chorei, joguei-me na avenida tentando abraçá-la, acariciei este caminho vil, todavia não comoveu-se. Tentei, bem que tentei colocar em meus braços essa avenida que antes ostentava sua serenidade de bebê, porém o peso de culpa do que fizeste a si mesma não era algo que eu devia suportar. A avenida vendeu-se as promessas tolas de governadores e suas construtoras, por isso assim ficou. Tento, juro que tento salvá-la de si mesma...

Antes havia placas com o nome dela, exuberantes, fitas rosas, amarelas, brancas e azuis por toda ela. Não vejo mais placa nenhuma, as fitas estão sobre o chão, sujas... E quanto mais ando sobre ela, quanto mais vagueio mais me machuco, mais sangro... ficando sem forças: nela morrerei!

Vendeu-se ao prazer da estética podre das promessas ignominiosas de mudança que, no entanto, tão somente a deixou monstruosa. Enfim, frente ao número 171, avistei a placa com a indicação de seu nome, nome desta avenida, mudou, mas nada é eterno: Avenida da Traição.

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