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7 de mar de 2012

O susto e a surpresa: tributo ao amor! _ por Lucas Gonzaga






por Lucas Gonzaga

Levantou da cama, vestiu a calcinha, dirigiu-se capengando e bastante tonto ao banheiro. No banheiro, escovou os dentes com barbeador e creme de barbear, tentou, em vão, fazer a barba usando pasta de dente e fazendo a escova de barbeador. Já na cozinha, sem entender por que suas gengivas sangravam e algo em seu rosto o incomodava, tentou fazer o café. Viciado em café, companheiro de muitos momentos! Acendeu o fogão, colocou a garrafa de café no fogo e que, por sua vez logo veio a começar a derreter. Sem nada perceber pensou que o cheiro de queimado vinha da casa do vizinho. Queimou a mão ao pegar a garrafa derretida. Não tinha em si mais um pingo de força para gritar, chorar de dor, havia gastado tudo no enterro da esposa.

O remédio que o Doutor havia lhe dado o anestesiou e não apenas, além de ter como efeito amenizar as dores da perda da sua esposa, o remédio o fazia não perceber coisas do cotidiano. Faltava-lhe clareza em qualquer coisa que fazia no dia-a-dia. Tanto que nem sequer percebeu sua filha de 6 anos, a Ana Júlia, gritava horrores, desesperada, vendo cada asneira que seu pai cometia dentro de casa, poderia até ter incendiado..





As pílulas do psiquiatra lhe tiravam da vida. A perda da esposa, mulher de sua vida, era para ele a perda de si mesmo. Perca de identidade? Não, num amor não há espaço para que existam indivíduos absolutos, porém é preciso admitir que em um verdadeiro amor a individualidade também nunca será aniquilada. Claro, carregam suas individualidades ainda, no entanto o profundo amor os faz ser um. São como um mesmo nas pluralidades, mesmo nas divergências. Haviam brigado muito na vida, 18 anos de casamento, mas o amor é que os faziam prosseguir após cada intriga. Realmente, o amor excede todo entendimento, porém mais ainda toda falta de entendimento, supera todo desentendimento.

De súbito, nosso homem apaixonado desta história voltou à realidade, percebeu sua filha, Ana Júlia, assustada e chorando, viu que o cheiro de queimado tinha origem em sua própria casa e assim entendeu o porquê da queimadura na mão. Além do mais sentiu que a gengiva ardia mais ainda que antes, sentiu o cheiro da pasta de dente no rosto e entendeu o que o incomodava tanto no rosto. Enfim, reconheceu de alguma forma a presença de sua falecida esposa no olhar da filha. Sim! Era fruto desse amor que os faziam como um: sua filha linda, agora sorrindo ao ver a cara de paspalho do pai, ela é a extensão de um grande amor! A filha, a melhor forma de ver esse grande amor se estender por mais e mais tempo na vida.

Depois de 3 meses da morte da mulher, a vida recobrou-lhe o sentido, pois nestes 3 meses, foi a primeira vez que viveu o rosto da filha. Não por que não a quisesse vê-la, era a filha que tanto amava, mas pelo mesmo motivo de não perceber os seus próprios descuidos que cometia, parecia um zumbi, vivo biologicamente, mas sem alma. Contudo em um instante ao ver o sorriso da Ana Júlia, sua alma ressuscitou!

Um sonho, um pesadelo, dizem ser efeito de tanta preocupação, de quem trabalha muito... Acordou deste pesadelo sorrindo, reparou a mulher ao lado, beijou-a e acariciou-a muito, e ela por sua vez acordou sem entender o porquê de o marido estar assim, sorrindo, algo que não via a muito tempo sem seu marido: um sorriso genuíno em seu rosto! Que pesadelo esse que havia tido, viu-se aliviado por demais ao ver a mulher ao seu lado!

Neste momento a mulher sentiu-se finalmente a vontade de falar-lhe algo importante. Sorrindo, tomada por uma expressão angelical, olhou nos olhos de seu marido, acariciou seu rosto e disse ao marido em meio à madrugada algo que sempre imaginou em como dizer:

_ Amor... estou grávida de três meses já! É uma menina, nossa Ana Júlia! Desculpe não te contado antes, mas é que você sempre dizia “Não começa não” quanto eu te dizia que precisávamos conversar. Sei que seu trabalho está complicado...

Não conseguiu completar, foi surpreendido pelo beijo mais apaixonado desta terra. Entretanto, o choro veio. Ele chorava compulsivamente abraçando sua esposa, sua flor, pois havia lembrado do sonho. É estranho dizer que este choro compulsivo possa ser um choro de alegria, mas era, e não apenas, era também o choro que fazia ressuscitar sua alma perdida em meio a tanto trabalho. O choro compulsivo era porque havia ligado o sonho que tivera ao fato de que sempre dormia com a mão na barriga da sua esposa, costume, só conseguia dormir assim. O choro aos poucos foi amansando, agora novamente sorria olhando para a mulher com o rosto ainda cheio de lágrimas.

 Teria sido isso, o sonho louco que teve, uma primeira comunicação da filha com ele? Bom, ele, sempre cético com tudo, mas agora tinha certeza que sim, que este sonho foi lhe passado pela própria filha!

 Beijou a barriga da esposa e disse baixinho: _ Obrigado filha!- E voltou a dormir de conchinha  com a mulher, que agora sorria, sabendo que algo havia mudado em seu marido a partir daquele momento.

5 Comentários:

Maithê de Oliveira ♦♠♥♣ e tantos detalhes... disse...

Emocionante o texto! Carregado de sensibilidade! Delicado.

Preso por fora disse...

Maithê, muito obrigado. No marcador "Literatura" ainda tem outros que escrevi, e creio que ainda melhores! Abraços! Obrigado pela presença!

thais villalba disse...

Muito bom!!!! Realmente é de dar esperança.... PAZ, MUITA PAZ!!!!! Depois de um tormento.... Num mundo cheio de tormentos.....

thais villalba disse...

Numa noite dessa... ler isso!!!! quebranta qualquer coração!!!!!!!

Amanda Duarte disse...

Gostei muito!

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