Pesquisar este blog

20 de fev de 2012

Greve dos professores: para que serve? _ por Lucas Gonzaga






por Lucas Gonzaga

"... deveriam priorizar o empenho de formação permanente dos quadros do Magistério como tarefa altamente política e repensar a eficácia das greves" Paulo Freire em Pedagogia da Autonomia.

Basicamente todos os anos, nas principais capitais do Brasil professores entram em greve. E não são poucos os casos da bendita greve de três meses, onde após, o Juiz bate o martelo a desqualificando e, consequentemente, acaba por ruir o movimento grevista dos professores, pois começam a deitar e rolar nos contras-cheques os descontos para quem continuou com a greve decretada como ilícita. Isso é que faz muita gente desistir da greve.

Aliás, qual seria a lógica da greve de professores? Imagine uma montadora de automóveis, com 12.300 trabalhadores como na GM de São Caetano/SP. É imensurável o desespero do explorador, dono ou grande acionista quando 12.300 funcionários entram em greve. Toda a produção é interrompida, prazos de entrega começam a vencer, desistências surgem aos montes até que, de forma infalível, os patrões se rendem e é inevitável ao menos uma negociação.

Negociação,algo que pelo menos aqui não ocorre entre professores do Estado do Rio de Janeiro e o Governador (Governadores) e de igual forma também não acontece entre Prefeitos e os Professores do Estado. Não sei como é entre outros estados, estimo que o mesmo deve acontecer. Apenas sei que, quando há alguma resposta dos governadores e prefeitos que passam aqui pelo Rio de Janeiro, já sabemos que resposta é essa: porrete, bombas de efeito moral, bombas de gás lacrimogêneo.

Por isso é preciso que fique aqui claro qual o principal efeito que a greve, seja por qual classe de trabalhadores for, deve ter. Sim, objetivos nós sabemos quais são, são os direitos que reivindicamos, aumentos de salários, abolição de alguma lei que nos prejudique e coisas tais. Agora o efeito que a greve deve ter é o total desespero do empregador, o sentimento de que está perdendo algo de fato, no caso aqui apresentado, o prefeito ou governador deveriam estar nessas condições.

Imaginem como poderia ficar o governador do Rio de Janeiro se a greve dos Policiais Civis, Militares e Bombeiros vingasse, chegando a se estender a pleno carnaval, isso é claro, se não existisse a guarda nacional ou qualquer outro tipo de ajuda. Muito dinheiro perdido, menos empresários a serem beneficiados quando contratados pelo Estado para serviços, principalmente construtoras, logo, menor será a quantidade de doadores para campanhas eleitorais para o governador e seus aliados políticos.



Porém fica a pergunta: que desespero, perda real, prejuízo, sensação de importância dos professores tem o governador ou prefeito quando professores entram em greve? Greve de professores não faz nem cócegas nos governadores e prefeitos. Na verdade eles economizam luz, alimento e um tanto de outros gastos e, quando começa a descontar por decreto de greve ilícita, se muitos professores persistirem governadores e prefeitos economizam ainda mais, podendo assim fortificar, no caso de governador, apoio de prefeitos ao liberar verbas e também aquele esquema que descrevi no parágrafo acima. Estaremos, pois, ajudando a consolidar a falsa democracia. Bom, é meu raciocínio, sou leigo, fico grato se alguém me ajudara pensar e me corrigir.

No fim das contas estaremos fazendo acho que algo ainda pior que é contribuir pela perpetuação de cidadãos inertes, que não reclamam nem se organizam para protestar ou fazer qualquer outro tipo de ação contra as mazelas do Estado. Por quê? Simples e altamente dedutível: estaremos deixando de educar e instigar conhecimento em nossos alunos. No meu caso, professor primário, estarei mexendo com uma fase muito delicada da educação. 3 meses de greve, por exemplo, são meses fundamentais para uma alfabetização eficaz. Paulo Freire mais uma vez pode exemplificar o que estaremos deixando de cumprir:

Não basta saber ler que Eva viu a uva. É preciso compreender qual a posição que Eva ocupa no seu contexto social, quem trabalha para produzir a uva e quem lucra com esse trabalho.

Precisamos nos organizar por conta própria, pois se esperarmos pelos governos ou nunca teremos nada ou quando tivermos, teremos nos moldes do governo e , sabemos bem que, os beneficiados sempre são o governo e seus aliados e não necessariamente educandos e educadores. Quando falo em professores se organizando por conta própria me vem em mente a palavra martírio, deveras é certo que se nos esforçamos ainda mais do que já nos esforçamos em sala de aula, é martírio! Sei que ainda é mais difícil do que montar uma greve que costumamos achar que é eficaz, que é uma greve cheia de manifestantes, porém me parece ainda mais interessante e eficaz para um dia conseguirmos algo educar, que deixar de educar. Discentes críticos nos darão apoio em greves no futuro e aí sim, o desespero de autoridades autoritárias surgirá, tendo em vista a legião do conhecimento, o mar de informados e pensadores. Sei que a realidade é mais complexa e que nada será resolvido em um texto com alguns parágrafos. Não tenho cacife para dar soluções, apenas a habilidade mínima que todos temos de instigar diálogos e provocar debates.

 Podemos então refletir na proposta do Paulo Freire:

“... deveriam priorizar o empenho de formação permanente dos quadros do Magistério como tarefa altamente política e repensar a eficácia das greves"

11 Comentários:

Anônimo disse...

Lucas, bom dia. Apreciei bastante e pensei em uma proposta para um tipo diferente de greve para os professores. Bom vamos lá.
Se bem entendi e aceitei sua idéia, a greve dos professores não logra êxito porque, entre outros aspectos, não afeta diretamente a cadeia produtiva industrial, por exemplo. Ironicamente, acaba até sendo uma economia para o governo. O pior, para mim, é que a falta dos professores não parece fazer falta aos alienados pais, que não compreendem a greve. Ouço de muitos pais reclamações sobre a greve não por causa do "prejuízo educacional" aos filhos e sim por causa dos transtornos de ter que arrumar alguém para ficar com "aquele ser" enquanto eles querem fazer outra coisa. A esse respeito, me lembro de uma reportagem da rede lobo, digo globo, agora em janeiro, sugerindo aos pais atividades externas para os filhos nesse período - sem aulas - em que eles são "obrigados" a ficarem com eles em casa. Triste realidade: ter filhos é quase uma condenação. O professor acaba sendo uma espécie de carcereiro, livrando os pais da penalização de aguentar os monstros. Mas voltando a economia proporcionada pela greve, aqui na USP vejo semelhanças. A greve na USP também não fez cócegas no governo. Para a população, os alunos não prestam e a produção científica, oculta de todos, faz com que a USP pareça um mar de desocupados mamando no governo. Mas, na USP os funcionários podem fazer algo que o magistério não pode, por razões óbvias. Ocorreu que funcionários (relevantes) simplesmente fingiram aderir a greve e levaram seus trabalhos no bolso em "pendrives", indo trabalhar em casa. Ou seja: foi economia, economia e economia.
Minha idéia para os professores entrarem em greve é paradoxalmente trabalhar. Entretanto de forma a interromper os conteúdos e ministrar aos alunos apenas explicações sobre o que está acontecendo na educação e no governo, na forma de brincadeiras, caricaturas, atividades didáticas e cativantes, etc. Aos pais, encaminharia "bilhetes panfletos" para que os mesmos tenham a possibilidade de saber o que ocorre e quais as consequências para os filhos. Assim seria possível conscientizar sobre as injustiças e roubalheiras do governo. Me veio esta idéia como professor. O que acha? Pensando bem acho que vai ser mais fácil para o governo mandar todos embora e recontratar outros rsrs. Acordei.
Abraços

Preso por fora disse...

Lucas Gonzaga disse:

Putz, exatamente... Eu iria fazer um parágrafo contando como é a reação dos pais na greve, mas deixei pra lá...

Quando acabei de escrever esse texto me deu um estalo... o tempo de greve pode ser útil para nos encontrarmos, professores e outros, para congressos de educação. Pensei em escrever sobre uma possível relação mestres e doutores x professores... mas dinheiro é tempo e ninguém é tão solidário assim... os sindicatos deveria financiar 3 meses de greve de aprendizado com mestres e doutores...

Anônimo disse...

Como futuro professor, concordo com as ideias apresentadas, principalmente pelo nosso amigo anônimo que coloca em seu último parágrafo uma educação não só para as crianças, mas também para os pais. Num páis quando há greves de professores é notório que não há uma preocupação da opinião pública em relação a perca de intelectual de seus filhos e sim com seus afazeres pessoais. Creio que a partir desse contexto poderemos começar a traçar um novo pensamento em nosso população.

Neto Mota disse...

Isso mesmo, nos professores não podemos para de lutar nunca. É extremamente revoltante ver o descaço do poder publico com a educação, isso não se resume ao seu estado mas infelizmente atinge todo o país. Os professores tem que se unir, somos uma classe numerosa, pois em 2011 eramos quase 2 milhões, só na Educação Básica!!!e alem de tudo somos uns dos poucos profissionais formadores de opinião.E se permanecermos omisso diante das injustiça que exemplo estaremos dando para nossos alunos?

aqui fica meu blog, para que possamos trocar algumas ideias, e fortalecer essa luta mais que legitima dos professores por uma educação de qualidade.

http://professormotaneto.blogspot.com/

Anônimo disse...

Boa noite Lucas, somos acadêmicas de uma univerisidade no Rio Grande do Sul, acabamos de ler e discutir profundamente tua postagem. Nossa disucussão nos conduz a uma reflexão do que seja a matriz ideológica que está posta nesses movimentos grevistas. Nos assusta pensar que o Estado, que se diz democrático, use de autoritarismo para impedir que movimentos de luta possam acontecer. Tal qual anuncias em teu texto, tb nós acreditamos que é preciso reeditar o nosso jeito de lutar. Temos que brigar por professores que estejam dispostos a descortinar suas visões românticas para pensar o que realmente está implícito na forma desavergonhada que se encontra o ensino no Brasil. Precisamos nos fortalecer, através de nossas univerisdades para lutar por um ensino que ensine de fato. Um ensino que não seja medíocre, que possa ser articulador de pessoas que pensam, que criam, que produzam conhecimento.
Queremos agradecer tua contribuição para a nossa aula de hj. Foi bom encontrar eco para nossos conflitos de sala de aula, aqui na rede social.
Um gd abraço
Katherine, Anelise, Roberta, Cíntia, Eliana, Patrícia e Jozilda

Preso por fora disse...

Meninas, ao ler que são do Sul bateu-me uma imensa saudade de um amigo que tive por mais de 2 anos, falecido Giovani, irmão da Simoninha Fava que trabalha no programa Beleza na TV. Mas fugindo da nostalgia... Anuncio logo que sou um traíra, rs... Ao invés de fazer Pedagogia depois do Normal, escolhi Psicologia e saciar meu mar de curiosidades em dificuldades na aprendizagem.

Bem, após este texto muitas idéias surgiram através de conversas no grupo "Preso por Fora" do Facebook. Creio que apenas os sindicatos que são por nós realmente irão acatar. A ideia consiste em 3 meses de greve em estudos e mais estudos, conferências, mesclado com poucos protestos. Os protestos devem servir para chamar atenção do povo, pois ao governo não faz nem cosquinha. Os estudos e diálogo entre nós servirá para nos fortalecer e gerar mais ideias.

É aquela coisa que Paulo Freire diz que "Ninguém liberta ninguém, ninguém se liberta sozinho: todos libertam- se em comunhão" e que neste caso faz todo sentido. Não virá um governo redentor que irá salvar professores, menos ainda um professor ou grupinho salvará o restante. Todos juntos estudando e discutindo diariamente por 3 meses: sentiremos como nunca por parte do governo o como somos muito perigosos!

Eu poderia ter colocado no texto a falta de apoio que costumamos ter por parte de pais de alunos, mas sabemos que esse tema não é coisa para um parágrafo, rs... Abraços!

Anônimo disse...

Embora pudéssemos repensar as greves e mudar as nossas estratégias promovendo o enriquecimento intelectual dos alunos em sala de aula ao invés de parar de trabalhar, apenas isso não faria que o governo mudasse sua forma de negociar com os professores. A greve significa interrupção de uma prestação de serviço. A pergunta é: Qual é o único serviço que temos para interromper? Se trabalhássemos na segurança pública a solução seria a que você sugeriu. Não há como fazer greve sem a quebra da prestação de serviço do empregado. Portanto se no nosso país houvesse o grau de civilidade política que Paulo Freire sonhava realmente nem precisaríamos de greve.
Já trabalhei em sala de aula e também na secretaria de educação e posso afirmar que a idéia de que a greve de professores economiza dinheiro e, portanto é benéfica para o governo não procede. Quando há greve produtos alimentícios estragam, empresas que fazem o transporte escolar e fornecem merenda tem problemas com a secretaria, pois deixam de receber; documentos e prestação de contas deixam de ser entregues em tempo hábil o que prejudica o repasse de recursos do MEC para o município ou estado. Indiretamente: se a greve for longa, empresas de ônibus deixam de arrecadar com a passagem dos alunos, o transporte escolar alternativo também cai; até a senhora que vende bala na frente do portão deixa de lucrar, logicamente tudo isso afetando a economia local.
Mas talvez o que não parece evidente e isso posso afirmar com exatidão, pois fui por diversas vezes testemunha ocular é que quando há greve de professores inúmeros pais inclusive movendo ações judiciais reclamam nas secretarias de educação a interrupção dos serviços prestados. Querendo fazer dos professores os algozes nessa história os “patrões” apelam para o cassetete e, já que quando não se tem razão à coerção é única saída, batem e utilizam a opinião pública para nos transformar em vagabundos. Em uma coisa eu concordo com Paulo Freire: “deveríamos repensar a eficácia das greves” – Tornando-as mais constantes e políticas.

MUDE DE VIDA! disse...

FALA SÉRIO! É UM DESCASO TOTAL COM OS PROFESSORES,
DOIS DE MEUS FILHOS,ESTUDAM EM ESCOLA PÚBLICA E É MUITO DÍFICIL VER ELES EM CASA SEM ESTUDAR... E AINDA SOMOS FORÇADOS A IR VOTAR EM PLENO DOMINGO, E QUEM MORA LONGE DO BAIRRO TEM QUE PAGAR TRANSPORTE...PORQUE NEM TODOS TEM UM CARRO,NÃO VOTO EM NINGUÉM E PRONTO! SÓ CUMPRO O DEVER DE IR...

cinenegocioseimoveis disse...

Amigos, sei que não faz a linha do blog, mas com mensalão hoje estou a fim de detonar, me permitam?
Vamos lá:
- O PERFIL PSICOLÓGICO DE ESQUERDISTAS:
http://cinenegocioseimoveis.blogspot.com.br/2012/04/o-perfil-psicologico-de-esquerdistas.html
.
- BRASIL: PAÍS DE TROUXAS, COVARDES, PUTAS E MUITOS BANDIDOS:
http://cinenegocioseimoveis.blogspot.com.br/2012/08/brasil-pais-de-trouxas-covardes-putas-e.html
.

- Pequeno Dicionário Ilustrado da Novilíngua Lullista (Edição revista e ampliada ─ 120 verbetes):
http://cinenegocioseimoveis.blogspot.com.br/2012/05/pequeno-dicionario-da-novilingua.html
.
- Caso Verídico Pago Com Seu Dinheiro Trouxas!!!
http://cinenegocioseimoveis.blogspot.com.br/2012/08/caso-veridico-pago-com-seu-dinheiro_1.html
.
Abraço a Todos
Osvaldo Aires

Preso por fora disse...

Osvaldo, errou ao dizer que não faz parte da linda do blog assuntos políticos. Este blog é político nas poesias e até quando há confissões de fé, e obviamente em seus textos diretamente políticos.

Não acho conveniente postar contra o socialismo sem mais nem menos, a menos que seja uma abertura clara de discussões. O blog aqui se enquadra entre socialismo e anarquismo, ou seja, provavelmente os dois e únicos escritores aqui do Blog são socialistas libertários. Não nos coadunamos com Lula e PeTralhada, são pseudo-socialistas, não nos identificamos também com Lenin, Stalin, e eu particularmente vejo lá os méritos de Fidel, mas é um assassino! A união soviética praticou o pior tipo de capitalismo: o capitalismo de Estado, onde o Estado acumula e usa e abusa do trabalhador e não o dono de empresas.

Abraços! Espero que eu tenha esclarecido algumas coisas.

Preso por fora disse...

Osvaldo, sou estudante de psicologia e tenho uma curiosidade, gostaria de saber se possui licença para fazer exames e avaliações psicológicas e gostaria também de saber que representação estatística você usou para constatar que "socialistas" são assim ou assado.

Sim, percebi que existem socialistas por ódio e inveja pela preguiça ou incapacidade social de enriquecer, suas informações não são de cunho científico, pelo que saiba.

Postar um comentário

Related Posts Plugin for WordPress, Blogger...

Seguidores


Mais Jogos no Jogos Online Grátis - Jogos de Meninos