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25 de jan de 2012

Trajetória de um trabalhador_ por Lucas Gonzaga







por Lucas Gonzaga

Toca o despertador, Geraldo acorda. Não tem tempo para pensar, levanta de um pulo só, toma banho muito rápido, já são 4:00 h da madrugada, passa na cozinha e come o pão a seco, não tem manteiga, suco ou café, só comeu o que tinha mesmo que é pro estômago não dar nó. Que dó!

Fecha a porta, passa pelo corredor da vila, mora em terreno compartilhado. No corredor observa o gato que todo dia aparece fazendo o mesmo trajeto, com o mesmo olhar, o mesmo miado e nesta mesma hora. Já na rua vê sempre as mesmas pessoas, indo para os mesmos lugares, andando do mesmo jeito apressado, usando dos mesmos transportes. Passa o ônibus direto, passa outro também, pensa ele invocado “Que demora, que demora, me lembro até dos tempos da escola!”.

Lembra ele então dos tempos da escola em que o ônibus não parava, para resolver catava amêndoas e no ônibus tacava. Na verdade isso nada resolvia, apenas sua raiva suprimira, pois a no mundo em que vivia, o pobre que sempre trabalha, sustenta governos, os ricos e toda aquela tralha, e é sempre visto como nada, como nada.

O momento de esperar o ônibus era basicamente o único que havia para pensar. Todo dia trabalhava, construía sedes de empresas, edifícios luxuosos, casas e escolas, igrejas, shoppings, teatros a valer. Dava o seu suor para tudo isso fazer. Na realidade raramente entrava em um desses locais, não havia tempo para ir, mas também sempre ao tentar, chegavam os seguranças pensando um bandido ser. Nunca consegue do que constrói se aproximar, até porque fora o já dito não tem dinheiro pra gastar. Aliás, minto, volta e meia a igreja pra rezar.

Sai do trabalho, já escureceu, de novo encaminha-se em direção ao ponto de ônibus, repara os mesmos pivetes de sempre, cheirando as mesmas colas e usando as mesmas drogas, de novo a porcaria do ônibus lotado: esperar! Chega em casa, beija a esposa, os filhos também, pergunta sobre o dever de casa. Toma banho, vai jantar vendo TV. Já é meia noite ao lavar o prato, grita com as crianças pedindo para dormirem. 3:30 h vai tocar de novo o bendito do despertador, “Ai que dor, ai que dor”, não tinha tempo para ir ao hospital público, menos ainda dinheiro pra pagar o particular!



Todo dia, o dia todo, a mesma repetição, meros ofícios da função, chega final de semana: futebol, botequim e oração. De manhã pra missa ir, de tarde futebol e boteco ao entardecer! Mas o que quero lhe contar é que além de cartão vermelho em menos de 10 minutos de jogo, e ter pinga negada pelo dono do bar, o padre naquele dia havia pegando pesado. Leu um texto tão bonito que eu nem acredito que na bíblia essas coisas existiam. Deu a mim, depois de ouvir, um ar amor, justiça e de esperança e também que no mundo há algo de muito errado.

No meia da leitura mecânica do padre, um sujeito bem velhinho, que dizia não escolher o texto,mas ler onde seu dedo parar, algo me surpreendeu que me fez tanto chorar. Até pedi para uma irmãzinha se podia copiar, que era pros meus filhos lerem em casa para eu sempre meditar.

Era algo assim, lê pra mi aí meu filho:

“Eles edificarão casas e nelas habitarão; plantarão vinhas e comerão do seu fruto. Não edificarão casas para que outros habitem; não plantarão para que os outros comam; porque a longevidade do meu povo será como a da árvore, e os meus eleitos desfrutarão de todo as obras de suas próprias mãos.”

Falo isso a todo mundo e quase sempre ponho a me emocionar. Imagine toda a humanidade assim, que desfruta diretamente do que produz, sem ter que entregar ao patrão para só depois comprar!

Tem até uns que ficam invocados, chamam-me de subversivo e de comunista, que isso é política e não coisa de Deus. Já os amigos ateus dizem que isso é religião e não política: vá entender esse povo, o que sei é que quero um mundo novo! Não dou muita bola pra eles, resolvi até estudar para ler isso como meus próprios olhos. Acho que a emoção será mais forte, quando essa passagem da bíblia eu com os próprios olhos ver; mais emocionante será ainda quando essas coisas que eu ler, começar acontecer.

Mas enquanto isso.. Toca o despertador, Geraldo acorda...



Indico abaixo, algo sobre o cenário rural do nosso nordeste: 

5 Comentários:

Marcos Bidart de Novaes disse...

Caraca Lucas. Você se superou. Um texto pronto e acabado. Demais

thais villalba disse...

Muito bom!!!! essa é a realidade de muitos brasileiros..... principalmente no Rio de Janeiro, onde o custo de vida está caríssimo e as oportunidades de crescimento, de vida decente, estão cada vez mais escassas. Nem o que pensar!!!! Nos dá muita decepção, infelizmente...

Preso por fora disse...

Valeu mesmoooo! Vindo de vcs me dá a impressão de que estou indo no caminho certo....

Bidart e Thaís, este é o cenário urbano, tem o cenário rural.... AQUI:

http://presoporfora.blogspot.com/2011/12/com-fome-lamento-do-sertao-por.html

Karine Freitas disse...

Muito bom meu caro!!!
Conseguiu por no papel toda a nossa realidade.
Parabéns...
Deixa eu ir..q o despertador vai tocar...

thais villalba disse...

Eu cheguei a ver!!!!! Gostei muito....

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