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19 de jan de 2012

Parte 3: O Maníaco Virgem de Bangu_ Na sucursal do Inferno









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por  Lucas Gonzaga

De um lado da sala redonda, sala que fica localizada a 60 metros da superfície terra a dentro, estava sentado o subprefeito da região com a mão direita no queixo, pensativo, de quando em vez até bocejava, em outros momentos falava sozinho num tom bem baixinho. Do outro lado o detetive, também sentado, porém muito apreensivo. O detetive suava frio, estava de terno cinza, não se aconchegava na poltrona em que estava daquela interessante sala, mantinha a postura por todo momento.

Este local em que estavam reunidos se encontra no bairro de Realengo, subúrbio na Zona Oeste do Rio de Janeiro próximo a Bangu, Padre Miguel, Sulacap e Vila Militar, entre ainda outros mais. Bairro com base do exército, onde Gilberto Gil ficou detido em épocas de ditadura. O local subterrâneo foi preparado por comunistas moradores da região em meados da década de 60, os tais comunistas eram militares que começavam a ouvir rumores de golpe militar, posto que a elite andava insatisfeita com Jango. Agiram rápido em construir este local.

 Havia entradas por diversos pontos, mas os primeiros usuários evitavam as outras entradas com o intuito de não chamar atenção, procuravam então utilizar somente a entrada do morro da Pedra Branca. A construção subterrânea que servia para reuniões e fugas foi financiada por Fidel Castro por meio do guerrilheiro brasileiro Alberto Gregório, morador de Bangu, que viveu alguns anos em Cuba. O caminho de fuga tinha como objetivo final a, hoje, cidade de Seropédica, perto de Itaguaí a 67,4 km quilômetros de Realengo. Seropédica naquela época não passava de matagal, atualmente não está tão diferente.

Num barulho que interrompeu a quietude do ambiente, quase saltaram de suas acomodações o subprefeito e o detetive, tamanho o susto que levaram.

_ Já pensaram?- praticamente rugiu com aquela voz grave e medonha do portador da pergunta. Fez esta pergunta após o som estrondoso que causou a porta que agrediu a parede, deveria de ter muita força para empurrar uma porta daquelas, porta provida de 30 centímetros de espessura em aço maciço: um peso descomunal para uma porta!

O homem branco, calvo, com mais de 1,90 m, tendo lá para seus 48 anos era o Comandante de Polícia do Estado do Rio de Janeiro. Não somente seu jeito e expressões faciais transmitiam temor e insegurança a qualquer um, havia algo nele, que mesmo parado, mesmo sem esboçar uma palavra, que com que as pessoas sentissem algo ruim, um certo terror tão somente apenas de estar ao lado daquela figura horrível. Há companheiros de trabalho deste Comandante que chegavam a acreditar até que tinha um demônio no corpo, faziam suas rezas, orações e mandingas com medo do Comandante. Já outros mais céticos apesar de o acharem insuportável e até mesmo perigoso, achavam apenas que o Comandante precisava de um bom psicanalista. As histórias a respeito do Comandante eram horrendas. Histórias de assassinato, de chacinas onde assassinou muito moradores de favela, etc.

Com a mesma força que abriu também fechou a porta: mais um estrondo para o susto dos que ali estavam! Tomou sua posição ao centro da sala, sentou-se, cruzou as pernas e, com uma expressão de severidade sinalizou como que diz “E aí? Não vão me responder?”. O detetive tentando gesticular com formalidade, diz:

_ Senhor, insisto na questão dos peritos criminais, por que não usar os peritos nos próximos homicídios? Vamos pegar esse cara (ou caras) de uma vez só com os peritos! Podemos abrir uma exceção para esse caso, a mídia que antes estava ano nosso lado, que nos pintava como heróis, agora está quebrando o pau pra cima da gente, Comandante!



_Rapaz, você é novo no negócio! A tal mídia “que está metendo o pau pra cima da gente” está apenas cumprindo o script. O povo precisa ter a sensação de que pode confiar em quem lhe transmite as notícias, mesmo que seja um pouco. Qual a diferença da mídia daqui do Brasil e a cubana?  Atente-se para o fato de que a cubana não lucra, ou melhor, apenas o governo cubano lucra com a mídia. Aqui a mídia são espécies de empresas terceirizadas que prestam serviços ao governo, coma diferença de que muitas pessoas além do governo lucram, e além do mais, ficam mais motivadas a trabalhar, pois podem lucrar. No fim, novato, tudo isso que se completa e a trama fica mais gostosa.

O detetive levantou o dedo indicador como quem pede permissão para falar algo, mas o Comandante aumentou o tom de voz bem irritado insinuando que queria falar mais, e continuou:

_ Simplesmente quando alguns desses políticos tentam denunciar toda esta arquitetura de domínio social, a mídia cumpre seu trabalho “queimando-o” para a população, denunciando seus podres. A mídia denuncia os podres destes traidores também, quando eles desobedecem a ordem estabelecida a respeito das metas e planos._ Neste momento o Comandante puxou seu charuto colocando-o na boca, levantou o isqueiro e o acendeu. Aproveitou ainda para soltar uma bela e demorada baforada enquanto cruzava as pernas, sentado em sua grande, confortável e luxuosa cadeira.

O detetive observou todo este papo de mídia e governo sem entender muito. O subprefeito da região quase fechava os olhos, já com muito sono e, bem desajeitado apoiando a cabeça na mesa de centro. Conhecia a muitos anos o discurso do Comandante, pois seu pai havia participado deste plano de controle social.

O sistema de ar estava sendo obstruído por sujeiras, muito tempo sem manutenção, então por este motivo começava ocupar espaço por toda a sala a fumaça do charuto pestilento do Comandante, aliás, ironicamente um charuto cubano.

_ Sim, vamos lá comandante... - toma novamente o discurso o detetive lentamente, ainda meio perdido após toda aquela abordagem do comandante sobre mídia. - Ok! E sobre a perícia? Não dá para capturar este criminoso apenas com depoimentos dos familiares das vítimas. Os depoimentos não dão pistas concretas, apenas informações impertinentes e irrelevantes. O uso da perícia é altamente necessário para que a gente pegue este monstro, esse ser demoníaco!


_ E quem disse que temos que pegá-lo, meu caro? Estamos no século XXI, está pensando que é quem? James Bond? Estamos mais que nunca na Era do marketing. Novato, eu acho que você não entendeu a sua função aqui. Anote nessa sua cadernetinha ridícula algumas coisas. - O detetive permaneceu inerte pensando ser uma expressão o Comandante impaciente a demora de cumprir a ordem, soca a mesa de centro, o que faz com que o subprefeito que cochilava sobre a mesma, movesse o corpo rápida e involuntariamente, espalhando assim papéis que segurava por todos os lados e jogando seus óculos para bem longe.


 _ Rápido rapaz! (gritou) Pegue esta porcaria de caderninho! – O detetive assustado logo apressou-se em obedecer quando percebeu que a ordem é literal e não mera expressão- Anote aí a primeira informação importante.

1º_ Você não tem direito de discordar, seu único direito é de receber ordens!

2º_ Se perguntei o que acha de minha solução é porque quero que você e o pateta do subprefeito analisem quais são os prováveis riscos. Entendeu agora, novato?

_ Nunca mais- Continua o Comandante, porém agora mais nervoso ainda- me peça perícia e outros “direitos do povo” que venha a gastar dinheiro. - O comandante agora se levanta e começa a falar de forma mais empolgada, contudo com ódio- Novato, isso é uma região de pobres, onde já se viu? Imagine, novato, gastar verba pública com cada coisinha que acontece? Quantos pobres existem? São muitos pobres, meu caro, muitos... Gastasse muito menos com marketing que com perícia, saúde, educação e outras coisinhas. Basta mudar o asfalto num período calculado, tendo como base os gastos é claro, e pronto. O pobre fica satisfeito. Gastar com obras se fortalece empresas e com isso ganhamos aliados. Mas usando peritos, mantendo saúde pública e educação em boa forma, o que se ganha com isso? Só gastos e pobres em melhores condições de reclamar.

O Comandante faz uma pausa, pois havia se distraído com um ronco alto do subprefeito.  Detetive estava estupefato, vontade que tinha era de puxar a arma que estava em sua cintura.

_ Novato, aprenda uma coisa: pobre é burro, eles têm problemas em entender coisas mais abstratas como educação e nossas explicações econômicas sobre o porquê de no realizarmos tudo que querem. Pobre fala do que vê com os olhos. Por que, novato, acha que nada acontece quando construímos escolas e hospitais, mas não funcionam direito?  Nunca dá em nada, São idiotas que até lotam as inaugurações das obras prontas, aplaudem, tomam cachaça e fazem festa!

Por um segundo o detetive interrompe dizendo: _ Mas e as Leis, Comand...


_ Lei, meu caro, é só no papel, não tem validade nenhuma, é de grande ajuda para que a gente contenha a população. Até por que lançando leis que dizem garantir direitos e benefícios aos pobres, anestesiamos eles, e assim, evitamos motins! Quando colocamos uma destas Leis de benefício em funcionamento, perceba que logo o preço de muitas, ou até mesmo todas as coisas aumentam. As passagens de ônibus aumentam, os juros, os impostos. Aliás, não podemos fiar no prejuízo! Concorda?

O ódio subia e crescia no detetive... Mas o Comandante continuava a falar e o detetive nada podia fazer.



_ Pobre são retardados que não percebem que não é mágica! Será que não percebem que escrever leis num papel não significa nada? (Soltou uma longa gargalhada o Comandante, realmente tinha achado graça de sua piadinha. Gargalhou alto a ponto de fazer o subprefeito abrir os olhos, mas logo voltou a dormir) Eles pensam o quê? Que colocar leis num papel automaticamente seus direitos começarão a ocorrer como que num passe de mágica? Papel não faz nada a ninguém, menos ainda fazer funcionar uma lei.

O subprefeito desta parte da Zona Oeste que ali estava agora encontrava-se acordado  excitado com o finalzinho do discurso fascista do Comandante. Balançava a cabeça como uma besta quadrada em apoio a cada explicação do Comandante. E até mesmo chegou a aplaudir ao final do discurso, de tão entusiasmado.


O detetive? Ele estava confuso, atônito, aterrorizado, não acreditando que ouvira tudo aquilo. Sentia que entrava em um beco sem saída. Seu sonho sempre havia sido fazer justiça, ser um agente da justiça. Agora percebia-se sem chão, sua prepotência de achar que sabe muito e que, como detetive, poderia descobrir tudo, estava sendo execrada. Sabia que havia corrupção, mas não que era coletiva e organizada a este nível, parecendo haver uma classe contra outra. Ele, como detive, não havia descoberto o sistema, os sistema que o tinha descoberto e não apenas: o tinha engolido para seu estômago fétido.  Não foi ele quem fez o inimigo não ter saída como sempre sonha em fazer, o inimigo que tinha o colocado nesta cilada, era assim que se sentia: sem saída.

Porém mais do que nunca havia decido duas coisas: não ficar parado e tentar descobrir mais dados sobre este mundo tenebroso que tinha acabado de descobrir e achar a qualquer custo esse maníaco que estava assolando a Zona Oeste e mais ainda, Bangu. O famoso calor de Bangu tornara-se agora sinônimo do calor do horror.

_ Vocês têm uma semana para me dizerem quais as implicações reais para esta minha idéia quando for colocada em prática. Uma semanaaaaaaaa!_ Mais uma vez o estrondo na porta. E saiu o monstro do Comandante.

Lucas Gonzaga                                                  [Continua]


1 Comentários:

Anônimo disse...

É ISSO AI,A MAIS PURA REALIDADE.

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