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26 de jan de 2012

Meu passado, meu inferno pessoal_ por Lucas Gonzaga






por Lucas Gonzaga      Isto é uma Ficção

Lembro-me bem da primeira semana. Pode parecer clichê, mas me lembro como se fosse ontem, com detalhes, até o cheiro! Dá a impressão de que a fragrância daqueles dias me invade as narinas. Não sei se era paranóia, porém me recordo bem das pessoas me olhando, dos cochichos. Não só pessoas que na época tinham minha idade, mas adultos também. Será que eu é que estava atordoado com o ocorrido, que me encontrava tão, mas tão afetado que estava na minha cabeça inventando coisas? Meus colegas riam de canto por que sabiam do que havia acontecido comigo? Ou era cisma minha?

Surpreendo-me e até me encontro perplexo com a lembrança de como eu apanhava de qualquer um com muita facilidade. Meu pai sempre me ensinou que quando não desse para brigar por eu ser mais fraco, que era para tentar me defender com madeira ou tacar pedras. Enquanto ele falava com sagacidade sobre essas coisas, sentia meu olho lubrificando-se, pois eu imaginava tacando uma pedra e ferindo alguém, e achava uma crueldade enorme, pensava no sangue saindo da cabeça de alguém, no pai ou na mãe chorando, em todos olhando e colocando culpa em mim. Tenho que confessar que não via a violência com facilidade. Por isso sempre apanhava e corria para casa e era chamado por meu pai de...

Boiola! Foi a última palavra que me lembro de ter ouvido meu pai falando antes que minha mãe se separasse dele.  Minha mãe saiu de casa semanas depois. Tenho lembranças de ver minha mãe apanhando, sempre relutando é claro, pois era mulher guerreira, de fibra, de garra e nunca perde a luta da vida, encara homem sem medo. A vi apanhando do meu pai em todos os cantos da casa. Ia ao colégio com o coração na mão e a cabeça na violência lá de casa.

Uns meses antes de meus pais se separarem, quando fiquei sabendo que passei de ano, o choro quente banhou-me o rosto.. O choro me acolheu, qualquer coisa seria motivo para choro, mas era a notícia de que passei e ano, então não era qualquer coisa. Sempre tive dificuldade no colégio, por isso era uma boa notícia. Então o choro me veio com a lembrança de tudo o que acontecia lá em casa, por isso o choro compulsivo mesmo no meio da rua.

Boiola! Lembra que eu disse que foi a última palavra que me lembro de meu pai ter falado antes da separação? É! Isso era diário, mas nesse dia eu estava dormindo e meu pai chegou de boteco, bêbado e já me sacudindo com um acerta violência. Já passou por isso, de estar num sono profundo e ser interrompido com gritos? Demorei para perceber que não era pesadelo, pois abria os olhos e dormia, ele tentava me colocar de pé na cama, mas  eu caia de sono sobre o colchão. Boiola! Ouvi de forma mais viva desta vez o grito, e só me dei conta de que a realidade era pior que o pesadelo quando senti a dor da primeira cintada!

Você deve estar achando estranho e se perguntando “Mas onde estava sua mãe nisso tudo?”. Minha mãe trabalha na área de saúde e naquele dia, como em muitos outros, como em vários natais e comemorações de ano-novo, estava de plantão.

Boiola! Era a palavra que eu sempre ouvia todas as tardes quando fazia dever de casa! Meu pai bebia cerveja, fumava e me “ajudava” a fazer o dever de casa. Não importava qual matéria eu deveria estudar, mas matemática era todo santo dia. Acho que é porque é a única matéria que meu pai sabia melhor, tendo em vista que é semi-analfabeto e eu estava ainda no primário. Meu pai aplicava a pedagogia da “Cerveja, relógio e porrada”. Marcava num despertador daqueles antigos, de ferro, a hora em que eu deveria acabar o dever, e ai de mim seu eu não tivesse acabado no momento em que tocasse, o cinto sempre estava as mãos. Enquanto ele esperava para me dar uma surra, pois era certa, devido o pouco tempo que me dava, bebia suas cervejas. E a bebedeira começava de manhã, porque eu estudava de tarde. Antes de eu apanhar ele segurava meu pescoço por trás e me direcionava a uma folha de papel. Fazia as contas na minha frente e dizia num tom deboche cruel, “Tá vendo como é rápido?”

Antes de eu apanhar ele me mandava tirar a roupa, dizia que não queria deixar marca visível. Mandava que eu deitasse na cama e começava a usar o cinto.

Tinha visto alguém em algum filme usando diário para falar da vida, sempre com a tão conhecida frase inicial “Querido diário...”. Achava isso um pouco estranho, parecia até que o diário era gente, mas numa brincadeira de “Amigo oculto” do colégio na 2ª série, que hoje chamamos de 3º ano, foi um diário que eu pedi. E depois que recebi mão parava de escrever. Escrever... uma das poucas coisas que sei fazer. Escrevia tudo nele, inclusive o que meu pai fazia comigo. Nunca sequer passou pela minha cabeça em mostrar para minha mãe, aliás, para ninguém, pois o diário era chamado de secreto, e assim então era para ser. E mais uma vez me espancou, disse que se minha mãe lê-se o meu diário, ele estaria ferrado e que diário é coisa de: BOIOLA! Não apenas, contudo meu pai ao ler minhas histórias de criança, disse que era coisa de doente mental. Na verdade nem sei se ele entendia. Penso hoje que minhas histórias, somada ao que acontecia, poderia ser um bom material para psicólogos dissecarem minha da época. O fim do diário foi o fogo, o diário foi incendiado, mas minha criatividade e vontade de escrever: nunca.

 Adivinha em que matéria eu tinha ficado nem recuperação? Nem precisa se esforçar: a bendita da matemática! Por isso o choro naquele dia, por isso sair chorando no meio da rua. A matemática era sinônimo de surra para mim e o despertador era sinônimo de pavor, fazer prova era uma pressão enorme em se tratando de matemática... A matemática era lembrança de apanhar pelado. Como fazer uma prova sem lembrar das surras? A professora chegou até achar que eu chorei no meio da prova porque não estudava. Então eu havia vencido o que outras pessoas faziam com um pouco mais de facilidade, com as dificuldades normais. Eu venci a matemática, então eu havia vencido meu pai e tudo aquilo que acontecia a anos, porém com mais freqüência no ano da separação. Essa era a sensação que me dava.

 É muito apelo escrever que estou chorando ao escrever esse parágrafo acima? Tanto pelo parágrafo acima, quanto principalmente pelo que irei escrever no parágrafo abaixo.

Agora eu estava lá deitado, pelado de novo, para levar a maior surra de minha vida. Sei que de novo é uma frase clichê, mas é real dizer que naquele momento tudo que meu pai me fez se passava na minha cabeça como um filme. Agora não era meu pai que estava ali, meus pais já haviam se separado. Quem estava ali era alguém com uma arma na minha nuca. Essa sim foi a maior surra da minha vida. Ele foi o primeiro a me estuprar, e após, mais 4.  Tinha envolvimento com tráfico, era o mais velho ali. Devia ter uns 24 anos e eu, apenas 12. Os outros garotos tinham idade um pouco mais velha que eu. Como cano do revólver na minha cabeça, a palavra que me corria era “Boiola”, que foi o que eu ouvi naquele dia momentos depois de eu ter lembrado desta palavra.

Foram sádicos: me seguraram e enfiaram uma piaçaba inteira de vassoura em meu pênis. Só contei isso pela primeira vez para alguém nove anos depois, e foi para minha mãe. Para o meu pai nem quero contar, ele fica com pressão alta apenas de eu estar na presença dele, além de chorar horrores de ter sido pai ausente.

A desconfiança de que meus colegas sabiam não era a toa, realmente sabiam. Após a separação de meus pais fui morar em um conjunto habitacional onde havia muitos blocos. Já tinha percebido que algumas pessoas cochichavam quando eu passava e que riam, mas eu achava que era cisma minha, seria isso um mecanismo de defesa de minha parte? Resolvi um dia testar e falei:

_ Estão olhando o quê? Quem cochicha o rabo espicha!

E me responderam:

_ E pelo jeito o rabo que espichou foi o seu né, seu boiola!

Ao ouvir a palavra “Boiola” você acha que não senti ódio como talvez você esteja sentindo agora? Sim, senti ódio, mas aprendi a apanhar calado. Apenas comecei a reagir mesmo, dois anos depois, em um bairro que fui morar bem distante deste do conjunto habitacional. Fiquei terrivelmente violento, claro, não virei nenhum assassino, nem sai por aí quebrando pernas de ninguém, mas é um comportamento que eu não via em mim e hoje em dia menos ainda. Sempre que queriam bater injustamente em alguém sem habilidade para brigar, lá estava eu. Principalmente se era alguém que fosse chamado de boiola, aí é que eu ficava mais nervoso!

Pus-me como a pedra nas mãos dos mais fracos, pedra que nunca consegui tacar em ninguém, mas este é outro momento de minha vida, onde se tem muita história para contar. Histórias com droga, sem sexo e com muito Rock N’ Roll. Histórias em que quase me mataram e que quase me matei, cansado da vida- com apenas 14 anos. Onde era um local novo e muito longe de onde eu morava, onde então zelei para que ninguém me chamasse de: Boiola!
  

8 Comentários:

Cleide Feitoza disse...

Que bom que aqui é ficção, mas infelizmente lidamos todos os dias com histórias reais, de sofrimento e tristeza, de familias desestruturadas, lares quebrados e o sofrimento de crianças que se ficam sofrem, se saem sofrem.E um sistema que não dá conta de tudo isso. Só resta a cada um de nós fazer nossa parte e torcer para amenizar a vida de pelo menos uma criança.E divulgar, protestar, contestar, votar de maneira a mobilizar outros na mesma luta.

Davi H. Gomes disse...

Olha você está de parabéns! Pelo fato de você não contar ainda com bases sólidas no que diz respeito à linguística, à teoria literária e à filosofia. Considero criteriosa a descrição dos fatos, a ambientação também está muito bem caracterizada. EU poderia dizer que a temática é simplesmente perfeita, [violência, abuso sexual infantil, degradação humana, maus tratos, tortura, enfim, temas bastante polêmicos e controversos]. Mas é isso aí, a própria vida se desenvolve de maneira polêmica, é preciso chocar-se para encontrar-se em um estado de catarse libertadora. A descrição da mãe e do pai estão enveredadas pelo caminho certo, assim como também a caracterização "passivo agredida" da personagem vitimada em questão, que reflete também o flagelo moral e psicológico que se enraíza condicionalmente de forma pragmática e inconsciente. A negligência, o descaso e a forma praticamente cotidiana sob as quais se desenvolvem os fatos em questão, foram alguns dos topicos que eu achei mais interessantes, pois fazem a ficção se aproximar muito do real, isso de uma maneira bastante reflexiva. O microcosmo que abriga os anseios infantis transfigura-se quase que instantaneamente revelando o macrocosmo da condição experiencial adulta, em outras palavras, há um rompimento, um salto brusco da inocência para o conhecimento involuntario das mazelas sofridas pela crueldade da natureza humana. Quanto a narração, esta é de uma sincronia quase perfeita. No entanto há erros sintáticos, gramáticos e de semântica[ compreensíveis digam-se de passagem], mas que no entanto precisam ser resolvidos para que a parte estética se aperfeiçoe. Sugiro um estudo acerca da estética da criação verbal de Bakhtin, Teoria Estética [Adorno] e alguns outros livros teóricos. Outra observação negativa que eu tenho a fazer é com relação ao desfecho que se encontra muito pouco trabalhado e restrito e ao clímax que também pode ser melhorado.Você tem futuro como escrtor e tomara que venha a ser um grande polemizador também, que escancara aquilo o que a sociedade teme. Continue assim, no entanto não se acomode, pesquize, busque informações e principalmente: leia outros contos e romances, para que você introduza pragmaticamente a estrutura narratológica e semiótica nas suas construções textuais. Mais uma vez Parabéns. Eu não costumo conceder críticas positivas assim tão facilmente. No entanto se você escrever um livro eu com certeza serei um leitor em potencial!

Anônimo disse...

Realidade muito dolorosa para uma criança que se arrasta por toda a vida. Muito triste haver gente tão depravada e quem está ao lado não mexer uma mão para ajudar.

Preso por fora disse...

Davi Gomes, suas palavras foram libertadoras. Os cursos que conheço para escritores são muito caros para mim neste momento, por isso precisava ler palavras como as suas para saber se valia a pena gastar o que não posso... Você me indicou um livro!!! \o/ Juro que procuro, mas sempre acho pouca coisa no site da saraiva... Obrigado mesmo, seu comentário veio como flecha, bem certeira... No nosso país ou não apontam os erros porque não sabem quais são, ou porque são carregadas pelo pensamento medíocre de "Deixa o menina erra, é iniciante", mas nunca falam nada. Só falata eu implorar as vezes pra que alguém me ajude. De novo, obrigado mesmo!!!

Marcos Paulo Blasques Bueno disse...

É mais que um privilégio ser amigo do seu coração Lucas, uma honra fazer parte um pouquinho mais do que se passa em sua alma e do que você nos transmitiu e ensinou através de seu fantástico texto. Bjs, @marcpbb Marcos Blasques

Preso por fora disse...

Privilégio, Marcos, é poder receber criticas e elogios de gente importante... saber que o que escrevi afetou de alguma forma a lguém. Obrigado por ter dado atenção, abraços!!!! rs

Cicero Edinaldo disse...

oi. Encontrei esse blog por acaso. O TEXTO É INCRÍVEL. mesmo q ele seja ficcional, acredito que existem muitas histórias parecidas com essa.
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adorei o blog. Vou visitar mais vezes. bjos!

Preso por fora disse...

Cícero, obrigado por seu comentário aqui. Esse seu comentário dizendo "O texto é incrível" me leva a crer que estou indo por um bom caminho na escrita. Continuarei escrevendo!!!

Esta hist´ria é de uma pessoa que conheço! portanto Real....

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