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30 de nov de 2011

Pesadelo e Realidade _ Parte VII do Livro Online "Engenho da Morte"


                     
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                                                            Pesadelo e Realidade

Caveira gemia de dor na cela super lotada. Cela para onze detentos no máximo, contudo constava quarenta e três criminosos. Gemia absurdamente de dor, sua calça estava ensanguentada. Fora a “mulherzinha” de todos os quarenta e Três que ali viviam, seguindo a hierarquia que tinha como base o poder dos mais fortes e o tempo de cadeia. Estava, como dizem alguns, com as tripas para fora, saia-lhe as vísceras, percebia que ficaria um bom tempo sem andar ou sentar sem que houvesse incomodo. A dor era insuportável e o sangue escorria-lhe lentamente em direção ao pé, percorrendo de pelo em pelo da perna, acompanhado de um odor descomunal.  

Foi apenas um pesadelo desta vez, pensou ele acordando. Um pesadelo que para Caveira já havia sido realidade. Caveira abre os olhos lentamente agradecendo a Deus por nada daquilo ter acontecido novamente, por ter sido somente um pesadelo. Aproveita e rodo para que isto, que com tanto zelo esconde, não mais aconteça. Ao abrir os olhos, tentou mexer-se, sente que suas pernas estão paralisadas, a dor muito se agrava, é imensa, tanta que parece que seu corpo não irá suportar. Está confuso e desorientado, desesperado. Voltou de vez à consciência olhando para cima devido a posição que estava. Avistava a noite negra, as estrelas. Apanhou tanto ao ponto de ficar tão desconexo da realidade que acreditou momentaneamente estar nos tempos em que morou na rua. Ele move seu pescoço para o lado e para o outro e percebe estar entre o rio e a casa velha de solda da rua Camarista Méier.

Tudo voltava-lhe a mente como rajadas, tal como muito relâmpagos cortando rápido e seguidamente aos céus. O choro vinha involuntário, aqueles de faltar o ar, não conseguia controlar: Mais vez não! Gritou. Agora entendia o porquê do tal sonho traumático: tinha sido seqüestrado, interrogado e espancado por um policial que, além do mais, policial que a última coisa que ouviu foi o ronco do fusca velho. Respirava procurando neste exercício, inspiração-expiração, um pouco de paz para entender tudo que havia acontecido.

_ Me prova que é morador daqui da favela rapaz!_ recorda Caveira o interrogatório do Cabo Ferreira_ Aconteceu ago de anormal aqui perto da comunidade esses dias? Vambora vagabundo, me prova!- dizia o policial.

Caveira se prontificou a responder qualquer coisa do fora perguntado rapidamente:

_ O assassinato do Bonde do Penta!- exclamou Caveira, como se estivesse vomitando este assunto.

_ Bonde do quê?- Gritou o PM.

_ do Pent...- o chute lhe veio no estômago, lhe interrompendo a fala. O sangue pulou saindo de sua boca e caindo na terra.

_ Eu sei é o “Bonde do Penta” seu retardado, vagabundo, seu nordestino! Esses garotos que morreram hoje eram do “Bonde do Penta”? Muitos assassinados tiveram como assinatura este nome pichado em seus locais de acontecimento. - diz Ferreira se recordando do muito que viu de barbaridade- Sabe quem os assassinou?- continuava ele- Sabe quem estava por trás deles? Pois eram apenas moleques, deve de ter alguém que coordenava esses garotos! Você está no contexto, seu nordestino malandro!

_ Não sei não senhor!- responde Caveira com uma expressão de quem estava implorando.

Ferreira sorri de canto, sobreveio-lho uma malícia, uma idéia sádica, já havia funcionado antes. Cabo Ferreira começou a dar risadas, sem deixar é claro de apontar a arma e finalmente:

_Tenho uma proposta para te fazer. Não faço negócios sem ter dinheiro, mas esta vale à pena. Você que escolhe, terá livre-arbítrio. Viu como sou gentil?- dizia com seu sorriso monstruoso- A parada é o seguinte: se você me entregar quem assassinou os meninos ou me der alguma pista relevante, te dou o privilégio de ser “mulher” na cadeia!- mesmo bastante o ódio subia a cabeça de Caveira e já começara a transparecer. - Ou, se não colaborar, vou te dar um belo de um tiro no seu furico, uma bala no seu fiofó! Nordestino não é cabra macho? Então escolhe: mulherzinha na cadeia o tiro no furico?- continuou a tal proposta Ferreira, seguida de muitas reisadas.

De tudo isso se recordava Caveira, paralisado, entendendo o porquê do pesadelo enquanto esteve inconsciente. Não podendo mexer-se direito recordando da resposta que deu a proposta do policial, com seu sotaque nordestino carregado, misturado com o jeito carioca que adquiriu com o tempo no Rio de Janeiro, sentia a dor na direção do abdômen. O tiro passou pelo ânus lhe saindo ao direito da barriga. O cheiro desconfortável de vaso de boteco não era à toa, vinha de si mesmo e não do rio ao lado como havia pensado. Esforçou-se para olhar o chão e percebeu estar encharcado de sangue em sua volta, por isso a fraqueza.

O deboche do policial havia provocado o homem, exaltado ao extremo seu ódio por ter tocado em sua masculinidade, por ter lembrado coisas de que não gostaria de ser lembrado. Mesmo machucado, bem debilitado, sentiu orgulho de ter xingado o policial e ter cuspido na face corrupta. O motivo do pesadelo, que não foi apenas pesadelo, mas já havia passado por aquela experiência aquilo. Não só a proposta do policial o lembrou do fato de seu passado na prisão para que tivesse este pesadelo, porém algo que influenciou muito para que tivesse tido aquele terrível pesadelo era a insuportável dor em seu ânus. Era tão ou mais insuportável tal qual o dia terrível em que fora mulherzinha da rapaziada da cadeia.

A proposta era sem saída, tanto pelas próprias conseqüências que o policial colocou em voga (Virar mulherzinha ou levar um tiro no reto) quanto por não ter o que responder ao que lhe imposto pelo policial. Pelo ar do policial, Caveira deduzira que o policial não sairia dali sem uma resposta,. Pensava na hora da tal proposta que não tinha como dizer, mas desesperadamente precisava dizer algo relevante para ver se, satisfeito, o policial desistisse das loucas que havia falado.

Caveira não iria admitir mesmo que era o mentor criminoso daqueles garotos. Então ele pensava: “Como dizer, sem dizer?”, pois para, talvez, se livrar da “tal proposta” devia contar algo de precioso para a investigação do policial, porém este algo seria a denuncia de si mesmo, tendo em vista que ele era o mentor dos menores, o que faria por sua vez com que fosse para a cadeia de qualquer jeito. Em meio ao desespero, com uma arma voltada para sua cabeça, não havia pensado na possibilidade de ligeiramente inventar qualquer mentira, pois a própria situação tensa não deixava espaço para penar: o que lhe veio de súbito então, acompanhado de seu ódio, foi a cuspe no rosto do policial e os mais diversos xingamentos.

_ Qual é Caveira, que merda é essa? Você tá todo ferrado!- disse o bandido que fazia a primeira ronda da noite, ficou desesperado, estupefato com a cena, ao ver o colega naquele estado nojento. O odor que invadia suas narinas quase o fez vomitar por diversas vezes.

O bandido colocou a arma na cintura e socorreu o colega, Caveira, que havia sido do tráfico com ele. Caveira desertou no primeiro confronto armado contra a facção, obviamente rival, ao tentarem invadir a favela da Camarista.

_ Que isso no teu rabo?- disse o amigo pegando o Caveira no colo- É um bilhete Caveira. Diz aqui: “Este queimou a rosca!”- falou o silabando, pois não sabia ler muito bem.

Lucas Gonzaga

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