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1 de nov de 2011

O suicida que odeia clichê _ por Lucas Gonzaga

     



 por Lucas Gonzaga 

   Ele decidiu, andou, correu: chegou ao prédio. Lembrou que todos haviam conversado com ele sobre o assunto, que não deveria se entregar, que deveria lutar pela vida, que ele é capaz. Achou aquelas frases de efeito terríveis, parecia até que as pessoas não tinham apreço por ele, que queriam exibir suas frases prontas que aprenderam em seus livros de auto-ajuda. Pensou “Ninguém esta aí mesmo para mim...”. Tais palavras, conselhos e tal, não o surpreendiam. Ouve sempre essas repetições em igrejas, filmes, livrinhos bobos, palestras imbecis, etc.
 
      A cada degrau que subia a força para suicidar-se aumentava, estava cada vez mais convencido de que não havia mais nada a fazer além de suicidar-se. Desviou verba da igreja da qual era membro, faliu a própria empresa, maltratou seus funcionários, castigou severamente seus filhos e bateu em sua mulher. Era empresário famoso. Muitos o odiavam, e por que não dizer que todos o odiavam?

       Chegou ao topo do prédio de 30 andares, no heliporto, olhou para baixo, ficou ainda pensando na vida, nos filhos, na família, nas pessoas que ele amava. Estava extremamente arrependido e envergonhado do tanto de maldade que já havia realizado. Lembrou das frases de efeitos que disseram-lhe naquele dia e ao decorrer da semana, mas que tinha nojo.

       A multidão começou a se formar abaixo na rua. E ele pensava, pensava e pensava. Lembrou de quando na infância e na adolescência havia praticado ginástica olímpica, resolveu então pular com cambalhotas, iria terminar a vida da melhor forma possível. Estendeu as mãos como quem se prepara para fazer sua ornamentação, seu salto artístico, e ficou um certo tempo nesta posição preparando-se. O lado pitoresco da história é que ele resolveu saltar do prédio onde ficava a empresa dele, prédio que foi dono e por algum motivo estranho, todos os 2.550 ex-funcionários agora saiam do prédio e faziam por lotar, não só a rua, mas a grande praça que a havia em frente, juntando-se a multidão do centro da cidade que lá estavam observando um louco em cima da prédio com a aparência de quem ia pular.

       _ Ué, mas num é o patrão?- perguntou a ex-faxineira.

       _ Ex-patrão! Sim, é ele mesmo, mas lembre-se bem, é o EX- patrão!- respondeu o ex-gerente de marketing.

_ É o patrãããão!- Gritou alguém colocando as mãos na cabeça ao que alguns responderam _ EEEEX – PATRÃO!

       E formou-se o reboliço, começaram as fofocas, as conversas.

         Ele, o aspirante a suicida, percebeu que as vozes lá de baixo aumentavam em conversas e mais conversas. O corpo de bombeiros chegou. O suicida começou a observar que surgiam gritos organizados da multidão abaixo, mas ainda não entendia o que exatamente gritavam, o som crescia cada vez mais até que ele entendeu:

         _ Pula, pula, pula, pula, pula!

        Finalmente palavras que o surpreendeu. Desfez a pose de ginástica olímpica e começou a olhar a multidão. O mundo não era robótico, pensou. Numa tentativa de suicídio quem em sã consciência iria gritar para um potencial suicida pular, por mais que o suicida seja uma pessoa ruim?

        Estava com um sorriso e agora em um transe, estupefato! E o grito organizado mudou, deixando-o ainda mais com uma alegria irradiante. Agora o era uma musiquinha:

        _ Se Oswaldo não pular, olê, olê, olá, eu vou chorar!

        Oswaldo era o nome dele. Ele já esteve na frente de multidões assim incansáveis vezes, fazendo palestras e dando avisos aos seus muitos funcionários. Nestas reuniões os funcionários aplaudiam-no e todo o mais, porém ele sabia que era aplauso de funcionário puxando saco de patrão, pois, qual o motivo que tinham de aplaudir se não o de puxar saco, tendo em vista que era um péssimo patrão? Daí é que ele ficava mais irritado, pois sabia que as bajulações eram falsas.

      Agora, estava anestesiado de felicidade com as musiquinhas e gritos organizados pedindo para que ele pulasse, sentia mais confiança de viver no mundo. Ele preferia  um mundo com uma honestidade dura do que com aparência de feliz, mas falso. Agora os gritos organizados eram espontâneos. Oswaldo, acenou para baixo, mandou beijos, fez um sinal de coração juntando as mãos. Enfim, virou as costas e povo reagiu:


     _ Aaaaaaaaaaaaaaah!

         Ele ouviu a insatisfação do povo lá embaixo e ficou ainda mais motivado a viver, a descer do prédio e descer a vida. O que ele nunca havia pensado e a mulher guardou em segredo, é que, após ler a carta de suicídio dele, dizendo que se ouvisse algo que não seja clichê ou falso ou robótico, ele gostaria de voltar a viver. Depois que a mulher leu esta carta, correu para o ex-local de trabalho dele, percebeu a multidão, olhou para cima e viu o marido, começou a pensar em algo que não fosse clichê, em algo que o surpreendê-se. Até que puxou os coros, os gritos organizados, as músicas. Sabia que provavelmente surpreenderia o marido.

      O marido desceu do prédio, ela o beijou tentando prender gargalhada que insistia em querer sair. 

5 Comentários:

Maite Santamarta. disse...

Gostei muito do conto Lucas. Da próxima vez, deixa que ele pule, pode ser que o resto da quadrilha se anime e faça o mesmo.
A lista podia começar pelo Eike Batista.

Preso por fora disse...

Pena mesmo é que os grandes empresários se sustentam do clich~e, da vida robótica, rs... Esse aí era uma excessão que se arrependeu.

Gessy disse...

Gostei do conto! Se todos (da mesma "classe") resolvessem fazer isso, haja edifícios...

Preso por fora disse...

Obrigado Gessy! Não é legal trabalhar o mês inteiro para sustentar empresários, né, rs...

Thaís Villalba disse...

Muito bom!!!!!!! "ficou ainda pensando na vida, nos filhos, na família, nas pessoas que ele amava." Para mim foi um texto que me fez refletir muito...... sobre a vida, sobre o sentido de tudo......... Obrigado pelo excelente texto!!!!!!!!

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