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25 de set de 2011

O pai pródigo _ por Lucas Gonzaga



          Pródigo: Aquele que dissipa a fortuna loucamente ou a compromete com gastos excessivos; perdulário, dissipador.

        Pai: Pelas estatísticas, a quantidade de pessoas que não sabem o que é um pai adequadamente, é alarmante. Você, caro leitor, pode ser uma dessas pessoas, portanto eis aí o fato de, achando sensato, não respondê-los o que venha a ser. Minhas afirmações podem gerar repúdios, causando conforto por não ter tido um, ou pode gerar um desejo louco para ter tido um, podendo acarretar em depressão. Pai apenas é pai por completo, se feliz em comunhão com sua família!



         Domingo de sol, são 8:00 hs. Uma manhã maravilhosa, um sonho para quase 100 milhões de brasileiros em miséria e pobreza.

            A mulher beijou-lhe e o acariciou pela manhã, mergulharam em seu mar de rosas conjugal. Isso sem contar com a noite que tiveram, mas eram incansáveis. O casal tinha idades próximas, que somadas resultava em 50 anos. A mulher sentia-se valorizada, amada, protegida. No mundo dos sonhos e nos sonhos do mundo. O homem, segundo agora o bordão que adotara, sentia-se “um homem de verdade, agora sim, sou homem de verdade”. Para ele, ser homem estava relacionado a poder e dinheiro.

           Enquanto ele lutava com o sono, sua bela donzela que beijara aos 15 anos pela primeira vez, encontra-se lá embaixo, no vasto gramado com piscina e churrasqueira, que compunha sua propriedade. Cuidava do churrasco, vigiava as crianças felizes e saltitantes, que exploravam cada canto do enorme quintal da nova casa, cada árvore e elevações de terreno que diziam serem montanhas. Residência essa que agora, apenas ara se ter uma noção, a cozinha da bela e recente nova propriedade ocupava o tamanho da casa que antes sobreviviam. A família estava deslumbrada com a nova vida. Ele nem tanto, tenho em vista que sua vida era fora de casa. Seu mundo era o trabalho.

            Casado com uma linda mulher, dona de uma beleza exuberante, cuidavam de seus três filhos. Eram trigêmeos. Ele costumava ficar fascinado, pensando em como a natureza era incrível: deu-lhe dois meninos e uma menina. Ah, quanto cuidado tinha com sua florzinha!

            A mulher e o “trio-elétrico” de filhos, assim os chamava, eram suas paixões. Em momento de dor e angústia, presente em que vivia, não mais acreditava que a natureza havia lhe presenteado com os filhos. No auge de sua farta vida, onde não mais lhe faltava materialmente coisa alguma, acreditava agora que Deus o tinha presenteado com sua família. Dizia, “só pode ter sido Deus que me fez isso”. Pensava dia e noite que não merecia a família que tinha, que era demasiadamente sujo e impuro para conviver com uma família tão amável e doce. Quão agradável era aquela família! Por isso, quando lhe sobrava um tempo no trabalho, ao invés de chegar em casa mais cedo e dar atenção, aproveitando mulher e filhos, não, não fazia isto. Dirigia-se com os amigos de trabalho para boates, com garotas nuas. Ao mesmo tempo que em família absorvia uma alegria peculiar, incomodava-se com o fato da família não saber o chefe de casa que tinha. A culpa lhe corroia todo o psique, toda a alma e aos poucos o próprio raciocínio. A todo momento perturbava-lhe tal frase: Não mereço! Não mereço!

            Se o incomodava carregar a culpa do que fazia estando com a família um momento que fosse, tente imaginar como ficava tenso por um domingo inteiro, dia extenso. Sentia-se um trapo, miserável, maltrapilho após as saídas com os colegas de trabalho. Estava com o coração triturando, torturado, em pedaços, acabado, dilacerado. A cada dia que passava a angústia aumentava e, noite domingo de sol, estando no banho lembrando mulher e filhos, estava ele a ponto de explodir! Seus sentimentos o importunavam! Sentia-se um hipócrita, um falso diante da mulher que havia virtudes irradiantes. Esposa tão dedicada! Pensava ele. O s filhos, ingenuamente travessos como quaisquer crianças felizes, carregavam uma educação distinta: além do amor da mãe, a mesma era pedagoga. Qualquer pessoa se sentiria feliz na presença de tão amáveis guris. Mas ele, a cada vislumbre da beleza inominável da família, percebia quem era, sentindo-se o pior homem do mundo. Este misto de sentimento o assombrava. O poder e o dinheiro lhe diziam que agora sim era homem de verdade. Já a desonestidade, debochava e esfregava a carne podre da culpa na face de seus sentimentos.

            Antes de cada operação beijava a foto que tinha os filhos e a mulher aos sorrisos, contendo no fundo uma vista panorâmica, o que fazia com que recordasse da inesquecível viagem que fizeram. Participava de operações, mas não era médico. Ao final de cada semana contava dinheiro em malotes e mais malotes, porém não era banqueiro nem empresário, menos ainda contador. Pela família era chamado por um nome, já no local de trabalho por outro, todavia não era transformista. Fica a incógnita!
Filhos a 6 anos atrás

            

        Estando ele por meses entre a vida e a morte, escutava os altos elogios de sua esposa, as declarações de amor. O afeto das crianças que agora estavam com 6 anos o impressionava e de quando em vez, amolecia o coração. No começo: a tortura do não merecimento. Mas não era a bondade, o carinho, o afeto, a doçura da família que o torturava. Não há a possibilidade que o bem exerça o mal. O que o torturava era a culpa. O motivo da dilaceração e do ódio de si mesmo era o orgulho. Se assim não fosse, nem haveria de ter se metido no buraco perverso em que tinha se metido.

            Inerte, imóvel, sem poder movimentar-se, sequer conseguiria piscar os olhos, desta forma em todos os dias que passava recebia o amor de amigos antigos, da mulher e dos filhos. Não tinha o que fazer, não podia pedir para conversassem em outro horário, como muitas vezes fizera, descartando as pessoas. O amor agora, presente diariamente agora, abatia seu orgulho a cada batalha. Sete meses em coma e o infinito amor de sua de sua família substituía gradativamente o ódio, a soberba, e toda resistência ao verdadeiro arrependimento. Ouvia quase todos os dias a oração das crianças sendo conduzidas pela voz de sua mulher. Nos dois últimos meses, o que mais queria era acordar e contar tudo a sua mulher e mendigar seu perdão.

            Sua esposa todos estes anos de fartura acreditou que todo aquele dinheiro era por causa da tal empresa de segurança que o marido havia dito ter levantado. Mas não, não mesmo! Não havia empresa alguma. Era policial corrupto! Metido com bicheiros, com o tráfico, com a milícia do Estado do Rio de Janeiro. Com tanto serviço prestado a contravenção em detrimento da sociedade, conseguira comprar sua casa no Recreio dos Bandeirantes.

           Os filhos despedem-se da mãe de mão dadas com a tia, após muito terem beijado e falado com o pai, sem respostas é claro. O pai, chefe de família, decidido a tudo contar a esposa, a algumas semanas depois de sete meses, já te planeja com profunda tristeza a vida sozinho. Pensava ele, “se minha mulher tivesse errado comigo uma vez na vida, talvez me perdoasse, quem erra tem uma tendência maior a tolerância!”. Enquanto pensava, sentiu um movimento involuntário nos dedos dos pés e seguidamente nas mãos, como se tivesse subido algo. Tinha consciência de que estava acordando, de que saia do coma. A esposa vendo-o mexer-se grita pela enfermeira. Com lágrimas nos olhos a donzela carioca achega-se rapidamente ao pródigo, coloca-lhe as mãos dobre a testa. Apenas agora o policial lembrava-se do tiro que levara, causa do coma. O desespero para ver a mulher aumentava, até que finalmente o pródigo abre seus olhos.

           A esposa debulha em lágrimas de felicidade, pois não sabia se tornaria viver. O arrependido ainda sem ter noção da altura da voz, que muitos a meses não projetava, gritou pedindo por perdão. Implorando! O corredor inteiro, do quarto em que estava internado, ouviu o grito. Ao tentar explicar o ocorrido a mulher, foi interceptado com o delicado dedo de sua mulher verticalmente sobre seus lábios. Ao que, após de acalmar o marido, fitando os olhos nele com intenso amor, disse-lhe:

          _Eu já sei de tudo meu amor! E por todos estes anos eu vivi feliz em ter você comigo, mas agora é a hora de que você seja feliz de verdade!

          Em prantos abraçaram-se, e o medo que havia por parte dele fora lançado ao vento, medo esse que fora enxotado pelo profundo amor de sua mulher. A voz da mulher eu, ao consolar-lhe, soprara seus ouvidos, lhe trouxa paz incomensurável e o içar do peso da culpa, jogando-a na algibeira da morte dos sentimentos ruins. Transcendental! A presença da mulher soava-lhe como carícia suavemente divina, como seda leve do destemor. O que era pródigo atravessava a ponte em rumo ao prodígio. O marido tornava ao afago da mulher. O pai voltava aos braços de seus filhos!

Lucas Gonzaga

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