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17 de set de 2011

"Eu te amo" é clichê

         

          Costumamos dizer, mais por mania que por entendimento do que possa significar, que mais vale um ato que mil palavras. Lembremos: dizer também é um ato. Com palavras e tão somente, Deus fez o mundo. Agir é excelente, lutar por quem ama, etc. Porém, as vezes quem nos ama, ou quem precisa, mesmo quem não merece apenas precisa ouvir uma boa palavra. Dizer "Eu te amo" é muito gasto, sei que parece clichê, todavia é só o que muita gente precisa ouvir para ter o seu dia melhor, para desistir talvez até de um suicídio.

      Claro, claro, o objetivo, naturalmente, é fazer o outro feliz. Não diga que ama, não diga que gosta para ganhar uma “moralzinha”. Não, aí você não estará indo por um bom caminho.

      Certa vez, neste ano de 2011, no estágio, numa turma de 1º ano ( antigo C.A) um menino com dificuldade no aprendizado e com 2 anos de atraso de repente me disse:

     _ Nenhum pai presta!

      Ao que me dispus a indagar:

      _ Quem te disso isso?

      Aluno: _ Minha mãe!


    Abaixei-me para ficar de igual para igual com ele e perguntei tentando fazer com que ele entrasse em conflito com este pensamento que a mãe lhe passou. Com isto não era a minha intenção menosprezar algo ocorrido, aliás, para a mãe ter dito aquilo, provavelmente alguma coisa deve de ter acontecido:


       Eu:_ Você vai ser pai um dia?- ele consentiu- então você não vai prestar? Eu também quero ser pai e eu não vou prestar?

       O menino me respondeu com sorriso de criança e, devido ao grupo social que nasceu me disse:

       _ É nós! É mesmo tio!

      Eu apenas o corrigi, em tom de brincadeira, dizendo que o certo era dizer 'Somos nós" ao invés "É nós".

  

          Fiquei pensando nisso por dias e dias. Para mim, guardar isso já me bastava. Fiquei na esperança, sabendo que meu estágio uma hora iria acabar e que talvez eu nunca mais tivesse notícias do menino, sim, mas esperança é de que isso cause  mudança na maneira dele pensar.

        Mas não foi apenas isso, para a minha surpresa, a mãe me procurou emocionada me dizendo que tinha errado em ter falado isso. A mãe me disse que um dia, ela esbravejou mais uma vez que "nenhum homem presta", "que o pai do menino num presta", "que nenhum pai presta", pois além de ter tido um pai que alcoolizado que a espancava na infância, teve de igual modo um marido que assim fazia e que, ao divorciar-se, sumiu deixando-a sem mesmo uma ajuda de custo, nada.

        Neste dia em que, mais uma vez repetia essas frases, o menino a interrompeu com autoridade, nervoso e gritou:

     _ Mas eu vou ser pai e vou prestar!


          Com apenas 8 anos de idade seu pai lhe faltava, desde ainda menor não mais o vira e ainda tinha sempre que ouvir isto? Deve ser pesado para uma criança!

Não é a toa que Paulo Freire bate tanto na tecla do diálogo. Dizer também é um ato!

Lucas Gonzaga

"Não há diálogo, porém, se não há um profundo amor ao mundo e aos homens." 

Paulo Freire em Pedagogia da Libertação


"Onde quer que estejam estes, oprimidos, o ato do amor está em comprometer-se com a sua causa. A causa de sua Libertação. Mas, este compromisso, porque é amoroso, é dialógico." 

Paulo Freire em Pedagogia da Libertação

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