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12 de set de 2011

Chris Enio em: Como dizer o que se passa comigo, sem dizer? _ Parte V

          
                              
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                                                                  Indagações
       
         Na delegacia, Pedro observava tudo o que ali ocorria. Sentado em uma sala de espera, como quem não quer nada, lendo um jornal, observava o perfil dos criminosos e suspeitos que ali chegavam. Eram em sua maioria espancadores de mulheres, assaltantes, pivetes importunadores, algumas prostitutas e outros mais. Tentava ouvir e entender o que falavam os policiais, saber o porquê de alguns infratores irem embora sem mais nem menos.  Chegou a ver dinheiro sendo entregue a policiais, suspeitando ser suborno, porém como não entendia muito desses assuntos policiais, como ocorria na prática certos procedimentos, isso, apesar de ter freqüentado muitas delegacias, preferia não julgar, pois pensou que ao invés de ser suborno poderia ser simples pagamento de fiança. Todavia não tinha dúvidas de que havia a possibilidade de ser propina.

         Delegacia sem ventilação, abafada e quente. No termômetro do Baixo Méier marcava 43° (quarenta e três graus). Mesmo de calça, Pedro quando ainda se dirigia a delegacia para dar seu depoimento sobre a morte dos cinco meninos, com os raios de calor lhe cobrindo, sentia a pele queimando. Havia passado protetor solar, sua esposa sempre o lembrava. Na delegacia, começou a abanar-se com o jornal que a pouco lera. Não havia levado apenas o jornal, mas também o livro que, na espera para depor, havia avançado muitas páginas. De tanto esperar cansou de ler. Leitor compulsivo, porém cada um há de ter seus limites, sua vista começava a doer. Pedro, com as pernas cruzadas, balançando a que estava por cima, bufando de impaciência exclamou:

_Santa burocracia!

Com tom irônico, o cenho levantando, caneta na mão sobre relatórios e em pé, o policial disse:

_Algum problema, senhor?

_Não, nenhum problema!- respondeu Pedro desdenhando.



                      

                                   ***                        ***                          ***


          Rua Camarista Méier, local do crime, rua onde moram dentre muitos Christian, conhecido como Chris, e Pedro. Ferreira policial que costuma fazer segurança no Centro Educacional Méier, onde ficava em frente com o carro policial estacionado, se encontrava ali na Rua Camarista, à paisana, procurando prováveis suspeitos do assassinato os cinco meninos, conhecidos como Bonde do Penta. Andava até próximo da favela, que ficava no final da rua, indo e voltando sem nada encontrar. No local do crime, ainda manchado de sangue no chão e na parede, estava a empregada da residência jogando água, limpando as marcas de um crime. Permanecia chocada do que acontecera ali pela manhã. No momento do ocorrido, estava na esquina, ainda bem antes da curva, de modo que ainda não dava para ver o que aconteceu. Apenas ouviu os tiros, dando-lhe a impressão de que o som saia de seu lado, pois era ensurdecedor. Agora estava ela, depois do almoço, com náusea e esfregando o chão: ossos do ofício. Era doméstica por falta de opção e tinha que fazer isto, era seu trabalho. Estava em frente à casa de seus patrões. Não queria correr o risco de ter que esperar por garis, agentes de limpeza da prefeitura, o dia inteiro e de repente chegar seus patrões tendo que olhar tudo aquilo em frente a casa. Por isso lá estava ela.

          Em uma dessas idas e vindas do Cabo Ferreira, agora parado em frente a padaria, única da rua, do outro lado estava ele, com as costas no muro, com o pé direito apoiando no muro enquanto tragava seu cigarro. Aconteceu de ver um sujeito alto, magro, pele escura, com andar malandreado, aparentemente preocupado. A impressão que dava, para Ferreira, é a de que passava como se o tivesse visto, como se o tivesse reconhecido como policial e agora estivesse andando disfarçando e com medo, porém tentando manter a marra a expressão de tranquilidade. Cabo Ferreira pensou em abordá-lo antes que chegasse perto da comunidade. Com receio de se aproximar e o suspeito saísse correndo, resolveu fazer diferente de seus impulsos. Entrou em seu fusca velho com a intenção de interceptá-lo mais a frente, em algum local que fosse longe o bastante do morro, para que fosse favorecido em sua ação. Senão, poderia ser seu fim, estava sozinho por imprudências da delegacia que o enviou.

         A Rua Camarista Méier não é retilínea, é feita de muitas curvas. Não há, no sentido de quem vem da Rua Dias da Cruz em direção ao morro, que fica no final da rua, saída para o lado esquerdo. Ao lado esquerdo fica a Rua Barão de Santo Ângelo, o único acesso é a pé e isso, muito próximo ao morro. Fora isso não há possibilidades de fugir ou transitar para o lado esquerdo, pois além do mais a tal rua fica a uns cinquenta metros de altura acima da Camarista Méier, de modo absurdamente íngreme. Essa única entrada é uma escadaria. Já ao lado direito, apenas existem duas ruas. Uma em torno da metade da rua, que na esquina se encontra uma igreja evangélica e ao lado da igreja, a padaria onde Cabo Ferreira agora sem encontrava em frente, do outro lado da rua, fumando. A segunda fica mais acima, mais próxima a comunidade, dominada pelo Narcotráfico Carioca à noite, aliás, apenas uma das facções. Fica próxima a favela, mas não é um ponto onde, à luz do dia, traficantes se preocupassem em vigiar. Essa rua deve ficar a uns quatrocentos metros entre curvas e mais curvas do largo onde se encontra o comércio o ponto final de ônibus, vans e motos-táxis. Largo este que onde já se avista a boca de fumo, onde realmente fica perigoso.

Carlos Latuff


          O Cabo Ferreira entrou em seu fusca velho e amarelo, fusca que parado daria a qualquer um a impressão de que estava abandonado a anos.  Entrou nesta primeira rua com intenção de, contornando o quarteirão, parar na rua da frente, a que fica mais próxima do morro. Saiu devagar com seu fusca. Não queria dar a impressão ao suspeito de que o estava seguindo, pois o mesmo poderia, fugindo se percebesse a perseguição, invadir alguma das casas, que por sua vez faria causar um desespero, uma balbúrdia entre os moradores, a confusão estaria feita! Por isso rapidamente, porém com cuidado, se encontrava na rua da frente, esperando o suspeito chegar. Deixou a carro nesta rua transversa a Camarista para que o suspeito não visse. Posicionando-se na moita, com arma em punho, perto do rio a direita, esperava cautelosamente. Suava frio, não sabia se o rapaz estava armado.

           Agachado, viu o rapaz passando. O suspeito aparentava ter uns 34 anos, usava cabelo raspado, boné, camisa pólo listrada, bermuda no estilo surfista e chuteiras. Cabo Ferreira deu bote, tudo muito rápido para que ninguém, ou o menor número de pessoas o visse. Para Ferreira era coisa rápida. Pensou em colocar o cara, o Caveira, no carro para “dar um passeio”. Estava com a cabeça coberta até o pescoço com uma toca preta, com furos nos olhos e boca. O suspeito a princípio tentou defender-se, contudo percebeu, sentindo, o cano frio do revólver em sua cabeça.

          Por um momento havia achado ser brincadeira de algum amigo, mas ao perceber o revólver suspendeu tal hipótese. Alguns de seus colegas portavam armas, todavia de modo algum pregavam pegadinhas de surpresa usando armas como objeto da brincadeira; poderia terminar numa tragédia.

          Ferreira o puxou jogando-o atrás da casa velha de soldo. Caído no chão, o rapaz se encontrava entre o rio e a casa velha, entre árvores. E na mente dele passava o pensamento de que talvez estivesse entre a vida e a morte. Seu nome era Edmar, seu apelido: Caveira. Conhecia Ferreira de vista, pois para realizar suas contravenções tinha que estar de olho nos fardados e nos que para ele, tinham aparência de estar armados, de seguranças de estabelecimentos particulares no bairro. Para Ferreira, bandido também tem farda. A farda de bandido para o PM era o jeito de andar, de falar e de vestir típico de morador de favela. Assim, Ferreira extorquia os bandidos, pois se o perfil fosse diferente Ferreira poderia se colocar em alguma enrascada, podendo pegar algum criminoso filho de Juiz ou de algum militar de alta patente, “não queria problemas com os granfinos”, dizia ele. Deste critério que o Cabo da PM decidiu abordar Edmar Caveira.



          Agora estavam eles ali. O Cabo fitando profundamente seus olhos, tendo a impressão de já tê-lo visto. Apontava o revólver para a cabeça do rapaz que se encontrava ajoelhado no chão.


             ***                 ***                 ***                  ***                      ***


          Chris entendeu de forma mais expressiva o por quê de, quando ao passar em frente ao posto de saúde, indo ao trabalho, via a barraquinha improvisada vendendo salgados, doces, bolos e sucos e, pelas tantas da noite quando voltava da faculdade ainda estava por lá: o atendimento é demorado, a fila anda devagar ao ponto de deixar alguns com fome. Tinha ido fora do posto de pronto atendimento para comprar algo para comer. Pediu a uma bela senhorita, que se o chamasse para o atendimento, que por gentileza avisasse.

         Já passara de seu momento de almoço e estava com a paciência acabando de ter que esperar naquele posto médico a mais de quatro horas. Não aguentava mais ter que esperar pelo que era de seu direito.  Sem contar que não iria ao trabalho e isso lhe seria descontado no salário. Desde que o médico havia chegado, vinte e nove pessoas haveriam de ser atendidas para que enfim, fosse recebido pelo médico. Tinha-lhe passado ligeiramente na cabeça anteriormente, a vontade de ir embora para o trabalho, chateado com o dia descontado somado ao fato de que já havia se estranhado com o médico que iria lhe atender. Mas como a dor no punho era grande e, por ser mão que escreve, tendo em vista que trabalha escrevendo, Christian decidiu ficar. Aliás, iria chegar ao trabalho e fazer pouco. Iria faltar a culminância de seu trabalho: o texto.

           O segurança, que percebeu insatisfação na expressão de alguns que ali estava, encontrava-se irritado com o celular de Chris Enio. Estava emitindo um som muito alto e com músicas barulhentas, parecidas com forró, fora os gritos que o cantor soltava com línguas que nunca lhe ocorrera de ter ouvido antes. Uma senhora levantou, chegou e posicionando-se delicadamente ao lado do segurança, erguendo-se para alcançar os ouvidos do segurança, pedia para que o Jovem abaixasse um pouquinho o som. Explicou ao segurança com muito cuidado que não era nada pessoal, nem contra a religião do rapaz, pois inclusive comungava da mesma fé, era adepta do mesmo seguimento religioso que o rapaz e gostava das tais músicas também, porém estava passando muito mal. O segurança ouviu até o fim, pela mais pura educação toda explicação minuciosa da senhora sobre a dor, a religião e tudo o mais. Qualquer frase referente ao som que contaminava a sala já lhe era o bastante para fazer o que há muito queria fazer. Apenas esperava ocasião oportuna para pedir que abaixasse ou desliga-se o som do celular, todavia receava algum mal entendido no sentido religioso.

Fila de posto de saúde público. Perguntaram ao Governador Sérgio Sobral, após a estréia de filme "Tropa de Elite II" quando seriam atendidos em um posto, o mesmo respondeu entusiasmado: _ Nunca serão!



            Chris batia o pé no chão, sentado no banco de concreto, marcando o tempo da música. Estava pensando na morte dos cinco meninos. Garotos que conhecia desde pequenininhos. Refletia sobre qual pudesse ser o provável motivo do assassinato, em vão, não encontrava nada. Não se recordava de tê-los visto usando drogas nem de sequer ter ouvido falar que usassem. Já os vira algumas vezes algumas vezes no sinal vendendo biscoitos. Mas seria isto motivo para deixar alguém nervoso ao ponto de matá-los? Seria isto o bastante para comerciantes ou moradores do Grande Méier sentirem-se incomodados? Uma espécie de chacina da candelária?  “Claro que não”, pensava ele, “seria demais”.

            Por estudar Jornalismo, a curiosidade lhe aguçava a mente e a vontade de esclarecer os fatos tronava-se cada vez maior. Porém achava melhor não se meter, posto que Christian mora no Bairro onde o crime ocorrerá, para ser mais específico, mora na rua onde tudo aconteceu e, ao tentar averiguar a situação, poderia estar arriscando a própria vida, a vida de amigos e familiares.

           Enquanto pensava em todos estes acontecimentos, foi pego de súbito, levou um enorme susto. Parecia que sua mente tinha viajado e de repente voltou tão rápido quanto uma explosão. Sentiu a mão pesando-lhe sobre os ombros, acompanhado de uma voz firme lhe dizendo:

_ Boa tarde! Será que o senhor poderia desligar a música? Estamos em um hospital!

           Para Chris era claro que tinha sido uma pergunta, todavia pela firmeza da voz lhe soou como se fosse uma ordem militar.

_ Isso é prova de que o “inimigo” está furioso! _ retrucou Chris Enio comum sorriso maroto, com ar de quem sabe o que fala, balançando a cabeça para os lados enquanto falava.

           O segurança ao ouvir o que Chris havia lhe falado, estranhou, não compreendeu o qual o sentido de tais palavras, mas porque ele tinha abaixado o som, foi afastando-se com uma expressão em sua face de que não tinha entendido coisa alguma, expressão de quem está confuso. Chris abaixou o som apenas momentaneamente, pois para ele, o que aconteceu era sinal de que o “cão” estava furioso e, se o “inimigo” estava furioso, isto seria sinônimo de que agradava a Deus. Portanto, entendeu segundo sua maneira de pensar, que era melhor continuar com o som do jeito que estava. Sequer lhe passou pela mente que estava incomodando pessoas adoentadas e não algum tal de “inimigo”.

         O segurança ao ouvir novamente o som do celular, irritou-se, mas antes que viesse a fazer algo, percebera que o rapaz havia se levantado, pois tinha sido chamado para ser atendido. A intenção do segurança novamente fazer o mesmo pedido e se caso não tivesse sua solicitação atendida, expulsaria o rapaz do local. O segurança olhando para a moça que havia lhe pedido tal atitude, abanando a cabeça com um sorriso, fazendo um sinal de negativo dizendo:

_ É cada um que me aparece! _ A Senhora ao ouvir, sorriu.


***                           ***                          ***                            ***                          ***


           Tentando conter-se para que ninguém o escutasse, Cabo Ferreira com os nervos transbordando apontava o revólver para a cabeça de Edmar Caveira.

_ De onde você me conhece? Me diz! Acha que eu sou otário, seu malandro? – dizia Ferreira furioso.

_ Eu não te conheço não senhor! Nunca vi o senhor! – responde Caveira e, ainda ajoelhado, tremendo. Havia passado por essas experiências muitas outras vezes, mas ter uma arma apontada na cabeça era como se fosse sempre única.

        Agora chutando o maxilar de Caveira, ordena para que o rapaz se recomponha e torna a falar:

_ Você acha que eu entre na polícia ontem, malandro? Eu percebi que passou se cagando em frente a padaria, tentando disfarçar quando me viu! – o rapaz que já matara, estuprara, agora chorava. Para o Cabo Ferreira o choro era resposta de culpa do rapaz. “Alguma coisa tem aí!”, pensava Ferreira.

_Você veio fazer o que aqui na favela?

       Caveira responde com voz trêmula, devido o maxilar frouxo, deslocado, babando sangue:   

_ Sou morador, senhor!

_Morador, usuário ou traficante? – indaga Ferreira.

_Morador meu senhor, eu juro por Deus! _ Caveira mal acabara de falar a palavra “Deus”, o chute lhe veio certeiro no nariz. O sangue escorria-lhe pelo rosto.

Ao que pôs a dizer Ferreira:

_ Não ponha o nome de Deus em vão seu filho de uma égua! Você tem passagem pela polícia? [...]


                                                            Continua

***                          ***                            ***                            ***                                     ***

Lucas Gonzaga

Outras partes para que você não fique perdido:

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