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28 de set de 2011

Carícia última _ por Lucas Gonzaga

Vista do vidigal
        





         _ Vovó... - disse o menino, sentado na porta da cozinha onde a um metro e meio a frente encontra-se outra porta, a do vizinho. Tem favela que é assim, becos e vielas, tudo apertado mesmo. Ao lado direito do menino ainda havia, entre nuances e planícies, mil duzentos e sessenta e cinco degraus. Esta é a parte menos pobre da comunidade, pois após o último degrau, chegava a parte de terra e mato. Neste local a situação é deprimente. Quase uma centena de casas feitas de papelão, barro, de pedaços de madeiras que se acha em qualquer lugar, em qualquer canto por aí, muitos em lixos. Ao chegar mais perto, qualquer um perceberá que muitas casas são montadas com madeiras de estantes, armários e coisas do tipo que foram jogados fora. As crianças, de pés descalços sobre o chão sujos e enlodados, umas brincam e correm, outras paradas, retraídas, contidas, sentindo a dor da fome, saboreando o amargo sabor da miséria.

       O menininho, não atendido pela velha e cansada avó, insiste chamando em voz branda:

        _ Vovó... – olhando para baixo, ainda sentado e com um pedacinho de pau arrastando sobre o concreto, continua a chamar. Bem calminho e lentamente, diz:_ Vovó, a senhora está me ouvindo, vovó?

        A senhora, vem da direção do banheiro, andando devagar devido as dificuldades físicas. Fardos da idade. Responde ao netinho qualquer resmungar que não dava muito para entender. Passara-se mais de 100 anos da dita abolição da escravatura, mas a senhorinha falava ainda como escrava iletrada, como alguém que nasceu para viver na miséria. Dos dois anos que frequentou o colégio, ninguém lhe tirava da cabeça que a princesa Isabel era uma heroína. Na época dela, a escola não podia sequer tocar no nome de João Cândido. O professor que fizesse isso estaria perdido, provavelmente seria preso. Princesa Isabel, heroína? Ô mentira centenária!

Lamentavelmente isso é uma casa.

        _Vem aqui garoto!_ disse a preta velha ainda acomodando-se no colchão que, à luz do dia servia de sofá, pela noite, uma cama que comportava a avó e o neto.

        _ Vamos menino, obedece a vó! – disse dando palmadas no sofá, indicando-lhe o local. O menino largou sua varetinha e num pulo já estava ao lado da avó.

        _ Vó, eu ouvi a voz do papai naquela...
        
        A velha interceptou-o apertando-lhe entre os braços, lhe dando tapinhas carinhosos no rostinho do guri: _ Era sonho meu filho, era sonho... A vovó já num disse? Então!- do caboclo apenas escorriam as lágrimas.

        O tal pai, era o genro da velha. Matara sua filha quando seu netinho tinha apenas um mês. O mancebo dizia que foi por amor que a matou.

        Quando o menino de 4 anos tinha ouvido a voz do pai, estava já naquele clima de quem estava quase acordando. No momento em que esteve na porta da cozinha, única entrada da casa, notara os pingos de sangue escadaria acima. No entanto, tão somente ligaria uma coisa a outra anos mais tarde na adolescência, onde seu ódio brotaria. Até mesmo por que aquele caminho era comum, era o caminho da morte. Dali que milicianos arrastavam ao fim algoz.

         Ratos, pulgas, rãs e também insetos dos mais variados infestavam a parte miserável da favela, não bastando, os moradores daquela parte de cima, ainda eram obrigados a conviver com as matanças. Era na região ainda mais alta do morro onde costumavam torturar por dias, semanas ou mesmo meses uma mesma pessoa. Ouviam gritos de velhos, de adultos, crianças e jovens implorando pela vida. Ali que matavam, ali que era o cume do sofrimento.
 
          Na parte de trás do barraco, onde havia um barranco com vista para praia e o luxo do bairro praiano da zona sul do Rio de Janeiro, longos metros abaixo, uma queda, exceto por um milagre, seria fatal. O menino enche com água não tratada o balde e, redobrando as forças, ergue o balde para jogar água sobre o corpo magro. Neste mesmo momento o corpo do pai , no ponto mais alto do moro, passava a não mais existir, foi queimado. O vento, parecendo um ente cruel e sarcástico, empurra um punhado do corpo do pai, agora mero pó, de encontro ao menino, que irritado com tal sujeira volta a banhar-se. Momentos mais tarde enquanto escovava os dentinhos que dois anos depois viriam a cair, a arca dentária do pai era desmontada com um alicate velho, para que assim não houvesse provas de assassinato. Algo subia pela espinha do menino, ficou arrepiado.

        _Quando o papai vem me visitar vovó?- disse o menino.

        A avó contaria dias depois que o pai morreu, mas não disse como. O menino mal sabia que o último contato que tiveram, que o pó sujando seu corpinho seria carícia última de seu pai, seria aquele do banho, aliás, coisa que o pai nunca havia feito: nunca tinha dado um banho, um simples banho no menino! Pó que para o menino era apenas sujeira, momento este como qualquer um insignificante e que nunca lhe apareceria no escritório das lembranças.

        Quase ao fim da tarde deste sábado, o menino ajudaria a avó a jogar água sobre o sangue na escadaria. A velha limpava o sangue do assassino de sua filha, mas não limparia o passado trágico que presenciara.

Lucas Gonzaga

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