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11 de ago de 2011

Chris Enio em: Como dizer o que se passa comigo, sem dizer? Parte IV

                                                                       Começo do Fim
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Ano: 2010
Mês: Julho
Dia: 2, quarta-feira, 14:34 hs

Obs.: Dia ensolarado, 35°, Jogo do Brasil em uma copa do Mundo.

Gisele, a inspetora, com seu andar bem devagar, respiração ofegante, como quem está cansada, cuidando-se para evitar o roçar das coxas, caminhava com dificuldade em direção a uma sala de aula para dar um aviso. Gisele, a inspetora, era respeitada no colégio, tanto por seus colegas de trabalho, quanto por alunos. Porém, Gisele, mesmo tendo conhecido o valor do respeito, não aprenderá a respeitar seu corpo, era obesa, tinha diabetes. Não resistia a um bom prato de comida. Seus desmaios eram cada vez mais frequentes, entretanto seus amigos, apesar de muito preocupados com a saúde de Gisele, já haviam se cansado de com muito carinho, inúmeras vezes aconselhá-la sobre a doença, como se procede, o que fazer... Não obstante já soubesse, Gisele, pormenorizadamente todas as dicas e cuidados pertinente a Diabetes. Tinha as instruções e dietas do médico de cor.

Os barulhos de um colégio, evidentemente, são de vozes para todos os lados, vozes de adolescentes, crianças, repreensões de Professores, inspetores, vozes de longe, de perto, embora também houvesse os sons urbanos da Rua Dias da Cruz, rua movimentada em que se localizava o colégio, com seu trânsito infernal. Gisele chega a última sala de aula em que haveria de dar o recado:

_ Com licença Professora. – disse Gisele em voz baixa após abrir a porta. A professora consentiu.

Agora com a voz mais alta, pôs-se a dar seu aviso:

_ Boa tarde, gente! – Esperou, sabendo que todos iriam responder. Os alunos responderam-lhe o comprimento pronunciando pausadamente, em coro.

Continuou Gisele: _ Olha só, hoje é dia de jogo e o colégio armou um telão na quadra coberta. Quem quiser, pode ir embora, mas não sabem o que estão perdendo!

Todos gritaram em júbilos, de alegria, sorriam, gargalhavam. Gisele voltou:

_ Ah, aliás, a cantina continuará aberta. Não será preciso comprar nada na rua.

O sinal bate e entusiasmadamente todos começam a sair. Num alvoroço, conversando sobre o jogo, sobre os astros do futebol brasileiro, entre outros assuntos.

Gisele desce, toma seu posto no portão. Atenta, estava atenta a tudo e ao mesmo tempo, sem perder as crianças e adolescentes de vista que estavam saindo, encostou em seu rádio de comunicação e, apalpando-o como quem procura algo, conseguiu senti o botão certo. Fazia isso enquanto olhava e gritava com alunos para que parassem de fazer bagunça. Apertou o botão que procurava sem olhar e se comunicou com seu colega de trabalho. Gisele pergunta ao companheiro, que também é seu marido, se estava tudo bem, tudo sob controle. O marido, inspetor Willson, consentiu a tranquilidade em seu posto de trabalho naquele momento, a quadra. Os alunos, na quadra coberta, conversavam, faziam fila na cantina, uns cantavam gritos de torcida, outros apenas olhavam o acontecia ao redor, a espera do jogo. Inspetor Willson era tão obeso quanto sua mulher, Gisele, ao ponto de não conseguirem ter relações conjugais físicas.

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Na favela, ao som de funk e golpes de martelo na obra que acontecia, meninos conversavam no barraco de madeira que ficava ao lado do campo de terra onde jogavam futebol:

_ Ih, qual é neguinho? Não vai andar pra trás agora, né? – disse Lekin com raiva e gesticulando, característico de um bom malandro carioca.

_ Deixa o moleque, ele só tem 10 anos! – responde defendendo o “Menor”, apelido do menino, mais novo do grupo. 

Lekin continua, sem dar atenção a defesa do Menor por parte do Marcelo, vulgo Cachaça:

_ Qual é Menor, nós num vai roubar nenhum banco, não! É só um empréstimo de celular ou bolsa, mochila, sem devolução, de qualquer “Playboy” ou “Patricinha” por aí! – disse já em tom de quem está quase rindo. Todos puseram-se a rir, gargalhar, achando graça da expressões de medo que Menor fazia.

Menor timidamente e com voz trêmula de choro responde:

_ Tá bom, é nós! Mas é só para vigiar mesmo, né?

Cachaça se antecipa a explicar, falando de uma forma como quem já havia explicando “mil vezes”:

_ Cacete moleque, já num te falei?- Disse com uma vareta na mão, desenhando o local no chão. _ Você vai ficar no local, na esquina, com a bike e se ver alguma alguma coisa suspeita, algum Pompeu, Milico, é só apitar com esse apito aqui- disse mostrando o apito- e se embrenhar pra dentro de “Todos os Santos” ( localidade da região) e se entocar. Valeu? É, nós? Tá ligado?

Menor:_ É nós então na parada!- disse cumprimentando cada um de seus amigos com o movimento do tipo tapa na mão e soco.

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_ Patrícia, é melhor a gente ir embora, não acha? Sei que temos que nos distrair de vez em quando, mas a prova...

Patrícia intercepta o que Melissa iria dizer e com um sorriso prossegue:

_ “... a prova da Faetec está chegando...”, já sei, já sei amiga. Relaxa um pouco, senão vai surtar!- Patrícia troca rapidamente o assunto ao ver Fábio _ Olha Melissa, aquele gostoso do Fábio! – disse abanando-se com a própria mão.
Melissa: _ Está bom, ele é lindo, mas temos que estudar...

Patrícia: _ Ai, ele está vindo em nossa direção! – disse sorrindo e procurando parecer que não tinha notado.

Fábio vem se aproximando, mas ainda de longe, diz alto:

_ E aí meninas, vocês vão ficar? Já estão indo?

Melissa: Já, estamos indo sim, tchau! – disse curta e grossa. Patrícia se dispõe a responder rapidamente o contrário:

_ Não, vamos ficar, claro que vamos. Jogo do Brasil, patriotismo. O que faríamos? – disse empolgada, sorrindo, como quem derrete de paixão, se esforçando para não deixar que Fábio percebesse. Esforço em vão.

Melissa responde com desdém:

_ O que faríamos? Estudar, é claro! – disse, porém enquanto falava ia se retirando em direção a saída pronunciando a ultima palavra mais alta.

Fábio fica sem entender. Patrícia fica pensando que “pagou um mico” por causa da atitude da amiga, pensando que sua amiga exagerou... Melissa seguia em direção ao portão do colégio para sair. Estava abraçada aos livros e ao fichário, com a bolsa em cima do ombro direito. Pensando rapidamente e se indagando sobre o porque “ as pessoas estagnarem a vida por causa de futebol...” e “por que não conseguem se controlar diante de uma paixão, tendo elas que fazer coisas necessárias...”. Enquanto andava, mergulhada em suas questões, ouve:

_ Tchau, meu amor! Até amanhã! – disse com carinho, a inspetora Gisele.

Menor estava posicionado conforme o combinado, na esquina da Rua Pedro de Carvalho com a Dias da Cruz. Cachaça e Tiquinho, ambos com 13 anos estavam na mesma caçada em que se localiza o colégio, espreitando no portão. Melissa, agora falava ao celular, combinando com uma amiga que havia faltado, para se encontrarem e estudar.

Paralelamente atais acontecimentos, a Diretora recebia uma ligação.

Toca o telefone, a própria diretora atende:

_Centro Educacional Méier, Diretora, Maria Lúcia, boa tarde!

_ Oi, alô, alô, madame? Aqui é o Ferreira!

Indagou a diretora estranhando a identificação:

_ Ferreira? Que Ferreira? De onde?

_ Eu, o subordinado do Sargento Anselmo, Cabo Ferreira! Lembra? Ele mandou perguntar se a senhora vai liberar o “cafezinho”.

A Diretora responde debochadamente e exaltada:

_ E R$ 500,00 por semana é “cafezinho”? Só se for café para o batalhão inteiro! Não, diz ao Sargento Anselmo que não vai dar, que a vaca está magra aqui no colégio!- continuou dizendo _ Será possível que para termos segurança, não bastando o imposto, temos que pagar? Cabo Ferreira, são crianças e adolescentes! – exclamou com raiva, indignação e tristeza enfatizando as palavras “Crianças e adolescentes”.

Cabo Ferreira, encabulado, sentindo-se vergonha por não estar cumprindo sua função de forma devida, responde meio abobalhado, como quem não tem prática no falar. Responde não se sentindo a vontade com alguém de nível social e cultural mais alto:

_ Olha, o Anselmo disse que era pra te dizer, que “já é a terceira vez consecutiva que não paga”, que não vamos poder ir pra ficar de prontidão aí hoje! Não foi eu madame, é ordem do chefe! Sabe como é que é, né... pra gente te ajudar, a senhora tem que ajudar nós também!

A Diretora responde exausta com a situação e da conversa em si, sentia-se mal:

_ Está bem, depois nos acertamos, está bom? Tchau, que eu tenho mais o que fazer! Tenho que educar para que haja policiais honestos neste Rio de Janeiro! – desligou, batendo o telefone, sem esperar resposta de Ferreira.

Melissa sai pelo portão, vira a esquerda, falando ao celular. Lekin, o mais velho, estava com Cicatriz do outro lado da Rua, observando. Ao passar Melissa por Cachaça e Tiquinho, os dois disfarçam conversando entre si para a menina não perceber. Menor olha da esquina cada movimento de seus companheiros, estava muito tenso, com o apito na boca. Saia alguns sons do apito devido ao fato de, Menor, estar respirando mais intensamente.

Rua Dias da Cruz- Méier


Lekin, que liderava o grupo, fez o sinal, Cachaça avançou no celular da menina. Melissa, menina forte e teimosa, levou um susto, porém em um ato de coragem não largou o celular, segurou firme, ficou relutando com Cachaça, enquanto que sem Melissa percebesse, Tiquinho pelo outro lado de Melissa, puxou com muita violência a bolsa, que estava sobre seus ombros. Neste momento Melissa solta um grito muito forte e caiu ao chão. Gisele, a inspetora, sai do portão em direção a Melissa, gritando que parassem. Corria como podia. Fábio, que tinha resolvido sair, percebeu o que acontecia e fez o mesmo logo que se deparou com tal cena, tão comum no Rio de Janeiro. Cachaça, com o celular na mão e tiquinho com a bolsa, batendo na menina, os dois. Ouvem os gritos de Gisele, percebem Fábio correndo e, nesse susto, Melissa mesmo machucada e caída, agarra os dois. Gisele mal se agüentando vai de encontro ao chão, num tombo, aflita, não consegue se levantar. Nesta luta, Fábio chega, acerta um soco em Cachaça. Melissa ao ver o soco, em frações de segundo, sentiu ter valido a pena ter segurado os dois, mas agora estava sozinha com Tiquinho. Com a bolsa, Tiquinho tentando livrar-se da menina, puxa com toda força para o alto, estendendo-a do chão bruscamente, jogando-a em direção em direção a rua. Passava um único carro no momento, que estava vazia por causa do jogo do Brasil x Holanda. O motorista tendo visto a cena e com medo, acelerou o máximo que pôde. Melissa, quando jogada, bateu de cabeça no carro e, desacordada, num golpe, pôs-se cair metros em direção contrária. Ouve-se dois tiros, com espaço não muito curto de tempo de cada tiro, pois o atirador percebeu ter errado o primeiro tiro. Fábio cai com um tiro, tiro que perfurou um pouco abaixo da região da axila, atingindo o coração. Cachaça e Tiquinho, com grande medo, pensando ter, o tiro, vindo de algum policial, saem em disparada montados, cada qual, em suas bicicletas.

Melissa estava jogada, com o crânio aberto devido a batida com o carro em alta velocidade. Fábio havia morrido. A bala que o atirador pensou ter errado, havia acertado Gisele, que estava no, desesperada, gritando todo momento que parassem, sem conseguir levantar-se. Três pessoas no chão, próximas umas das outras. Papéis do fichário misturavam-se ao sangue. Gisele em um último suspiro, a ultima coisa que ouve é um grito de gol.

     ***               ***                  ***                 ***                  ***             ***

No morro, todos os cinco com seus sistemas respiratórios em pelo rigor funcional, em máximo de seus funcionamentos, olhavam uns para os outros assustados. Não era para ter sido assim, era o que pensavam. Não estava nos planos. Menor abriu um choro desesperado. Lekin, o mais velho e cabeça do grupo, o que sempre se colocava acima dos outros e bolava os planos, ofegante ainda, estavam todos agachados, levantou-se, deixou aparecer um sorriso bem maroto, puxou a camisa e exibiu a pistola. Todos estavam estupefatos, atônitos, gelados. Nunca haviam tocado em assunto sobre portarem armas. Sequer poderiam imaginar que o tiro teria sido disparado por alguém que estivesse entre eles. Naquela confusão, Menor tinha sido o primeiro a correr, com medo, logo após Cicatriz. Depois: o tiro.

Assim começou a sequência de assaltos dos cinco meninos. Começaram a se apresentar pelo com pichações pelo bairro, como “Bonde do Penta”. Assaltaram durante um ano pessoas inocentes: comerciantes, idosos, estudantes, ônibus, casas etc. Todos estavam em suas listas. Depois de apanhados algumas vezes, sempre se safavam, depois de surrados, entregando todo dinheiro que tinham. Já os policiais, saiam com dinheiro dos comerciantes e com dinheiro dos delinqüentes. Tudo isso fez que, com o passar do tempo, com uma região de bairros sob tensão, fossem, os cinco meninos, reconhecidos em rede nacional, através de um telejornal como: ” A morte do Bonde do Penta”. [...]

Continua

Lucas Gonzaga

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