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4 de ago de 2011

Chris Enio em: Como dizer o que se passa comigo, sem dizer? Parte III

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             Médico, relógio e infância
     
       Gonçalves acorda, de bruços, com o rosto colado no lençol, olho e boca entreabertos exprimiam tanto o sono quanto o desânimo. Escorre uma lágrima de seu olho, que faz por seguir sua rota, obediente a gravidade. Gonçalves lembrou de sua mãe lhe acordando para ir ao colégio quando ainda criança. Acordava com uma alegria disciplinar e estudava com dedicação, queria ser médico, queria descobrir como fazer sua mãe voltar a andar um dia. Como muitas crianças, banhava sua alma de uma enorme esperança, até que, esvaindo a lembrança da realidade da pobreza em que vivia, extraia de algum lugar mais forças para estudar e viver.

       Agora, já adulto, aos 38 anos, sofria com a amarga realidade de ser médico de um posto de saúde público Estadual. Só que agora, sem sonhos, quimeras, ou esperanças da infância. Agora, equacionando causas e efeitos de desejadas denúncias que gostaria de fazer. O que poderia ocorrer? Sabe que “misteriosamente” 16 Diretores do mesmo posto em que trabalhava morreram ou se acidentaram seriamente. Tinha que dar de cara com sua omissão, dia-a-dia, a respeito do que sabia sobre materiais de saúde trancafiados em uma sala e que não poderiam ser usados, a respeito de saber que metade das ambulâncias de seu Estado, Rio de Janeiro, estavam estagnadas, fora de uso. Enquanto que o Governador, Célio Sobral, locava ambulâncias privadas, embora soubesse que pelos cálculos que os gastos com aluguéis de ambulâncias privadas ficassem mais caros que o reparo das ambulâncias de posse do Estado.

        Apesar dos pesares e dos podres poderes, apesar do sentimento de impotência mediante a situação, mediante as péssimas condições de trabalho, vivia como bem humorado sempre que possível e procurava tratar bem seus pacientes, não obstante algumas vezes um paciente notasse algum sentimento contido.

        Com salário de R$ 2.073,94. Complementa sua renda ocupando-se de Plantões em hospitais particulares sempre que aparece no decorrer da semana e principalmente nos finais de semana. Pela vida corrida, não se alimentava de modo correto e isso, quando se alimentava. Um grande esforço para pagar os estudos, caro por sinal, da amada filha.

         Após um final de semana repleto de serviço, acordou atrasado na segunda-feira. Enquanto Dr. Gonçalves arrumava-se, às 10:00 horas, com a televisão ligada como de costume, para ouvir notícias, ouvia sobre o assassinato de cinco meninos com faixa etária de 12 a 15 anos que ocorrera na Rua Camarista Méier, no Bairro Engenho de Dentro, quase no encontro com a rua principal, Dias da Cruz. Jogou o café morno na garganta como se fosse cachaça e correu em direção ao carro.

                             ***              ***              ***          ***



         Chris estava sentado dentro do posto de saúde em um tipo de banco feito de concreto, pintado de bege. Percebia-se que soltava a tinta do banco, cascas, também da parede. Já havia distribuído, na espera da chagada do médico, todos os folhetos religiosos que levara, conversado com alguns de que obteve atenção. Havia agradado e aliviado alguns e importunado outros. Ao perceber que havia incomodado alguns, pôs-se a repetir em sua mente, irritado, a frase “Está repreendido em nome de Jesus”, pois pensava que se incomodavam-se, que o motivo era o de que  o “inimigo” estava fazendo isto a eles.
                                                                                                                 
                                                         
          Após espera de pouco mais de duas horas, Chris estava atordoado ainda com o pensamento de que cinco meninos que conhecia haviam sido assassinados. Tentava entender os motivos, sabia que eram travessos, mas não sabia de nada que fosse motivo para chegar a esse ponto. Aliás, existe motivo? Enquanto pensava nesta história, que já lhe assombrava a mais de duas horas, ouvia já a uns vinte minutos em bom e alto som músicas religiosas em seu celular, de modo que todos no recinto também ouviam. O refrão era algo parecido com “Deus vai te matar, vai te ressuscitar”.

       Agora são 11:27 hs, Chris Enio abaixa o som do celular, que já irritava sobremodo alguns e colocou-se virado em diagonal para seu lado esquerdo, dando atenção a senhora idosa que lhe chamou tocando o ombro.

_ Você não acha que isso é uma falta de respeito ao povo que tanto trabalha, paga seus impostos e quando precisa fica aqui, a mercê da sorte?- disse a senhora idosa, obesa, com dificuldades para movimentar-se, referindo-se ao atraso do médico.

       Chris responde: _ Deve ser por isso que o Governador Célio Sobral chamou os médicos de vagabundos um dia desses. - Disse gesticulando e com o volume da voz um pouco alto para que alguns o ouvisse.

No mesmo momento em que falava tal coisa, Chris percebeu que havia uma presença ao seu lado direito. Olhou, era o médico. Na sua camisa, uma plaqueta escrita “Dr. Gonçalves”. Era um homem alto, de óculos e carregando uma maleta. O médico, Dr. Gonçalves, sorrindo de modo simpático, mas como quem diz “você não sabe de nada, meu caro”, disse com muita delicadeza e respeito:

_ Vote melhor da próxima vez!


        Chris franziu o cenho e sorriu com deboche pensando “... é um Fariseu, hipócrita... o que tem a ver voto com atraso?”. O médico, clínico, olhou para todos que ali o esperavam e disse:

_ Bom dia! Com licença!

     Alguém respondeu bem alto do fundo do recinto em tom de protesto ao pedido de licença:

_ Toda!

        O médico ouviu risos. Dr. Gonçalves dirigindo-se em direção a sua sala, ainda bem a vista de todos, fraco, estafado, tonto, cambaleou. Um enfermeiro que por ali passava o segurou e pôs-se a entrar em sua sala. Chris Enio não hesitou em dizer apressadamente para a senhora do seu lado:

_ Está explicado, olha só, está de ressaca do dia anterior ou até mesmo já chegou bêbado! - A maioria dos que ali estavam puseram-se a rir do comentário.

         Enquanto dizia isso, novamente um médico passava do seu lado. O médico, após ouvir, prosseguiu abanando a cabeça negativamente.

Lucas Gonzaga

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