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28 de jul de 2011

Chris Enio em: Como dizer o que se passa comigo, sem dizer? Parte II

Amigos de sangue





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             O despertador toca. Na doce, mas embora pesada sonolência de quem trabalha a tarde e estuda a noite, soava-lhe ensurdecedor. O toque começava baixo e lento, de modo que conforme o tempo passasse, começava a ficar cada vez mais alto e acelerado.

Eram 6:30 hs.

      Chris Enio estava consciente, aflito pois não sabia o porquê, não entendia como não conseguia acordar. Parecia que não tinha controle do corpo, tentava se esforçava. Seu corpo permanecia inerte, não conseguia sequer abrir os olhos. Já acontecera a ele outras vezes, dava-lhe medo. Sentiu uma presença chegando em sua direção em passos leves. Foi gentilmente cutucado. Sobressaltado e assustado acordou por completo, suspendendo o tórax de modo rápido e involuntário ao centro da cama, sentado, como quem acordou de um pesadelo. A mãe, que o acordou, acudiu-lhe e perguntou:

        _ Está bem, teve pesadelo? Chris Enio, ainda sentado, olhou para baixo como quem estivesse refletindo e pegou-se em um sentimento de confusão.
                                                            ***
       Na noite anterior, depois de voltar da igreja no domingo, Chris Enio chegou em casa, assistiu um pouco de televisão. Um daqueles programas de domingo que passam faz anos. Ficou sentado recostando-se no braço do sofá . Esquentou a comida, pegou pano de prato, colocou em baixo do prato e comeu. Não estava muito bem e acabou deixando um pouco de comida no prato.

      Deitado na cama logo após de fechar a janela ficou tentando lembrar o que teria que fazer no dia seguinte. Tinha certeza que tinha de fazer algo, mas não lembrava bem exatamente o quê. Muito sonolento, quando pensava que estava quase chegando a resposta do que haveria de fazer no dia seguinte, acabou por dormir.
                                                             ***
        Sentado na cama, ainda confuso, como o sol batendo em seu rosto, irritado por alguns motivos: odiava quando a mãe abria a janela depois de ter acabado de acordar, pois o sol batia em seu rosto. Trabalhando de tarde e estudando de noite também não suportava ser acordado à toa, sem que tivesse alguma responsabilidade marcada para aquele horário do dia.
   
     Virou manejando o corpo de forma bem sonolenta, colocou os pés sobre o chão. Olhando para baixo, de olhos fechados como quem ainda sente muito sono, disse a mãe:

_ Por que me acordou a essa hora, não nada a fazer?

_ Você marcou o médico para ver o seu pulso, lembra? Já são 6:37. Se arrume logo, sem moleza, sei que está cansado, passou o dia inteiro na igreja ontem. - Disse a mãe.

_ Bem que eu dormi pensando que tinha algo a fazer hoje, só não sabia o que. Não preparei roupa nenhuma. – disse com a voz um pouco mais alta, depois de levantado se dirigindo em direção ao armário.

    A mãe logo se prontificou a afirmar:

_ Já está tudo pronto, corre, tome logo seu banho. Sua roupa está esticada em cima do sofá!- retrucou a mãe bem alto da cozinha, já preparando o café.
Chris andou rápido até a sala, olhou a roupa em cima do sofá, sorriu de canto com a boca fechada, não muito satisfeito com a roupa que a mãe escolhera.

        Em direção ao banheiro disse: _ Não era bem o que eu queria, mas tudo bem.
A roupa passada era uma camisa social de algodão, com listas verticais, uma calça social preta e sapato com bico quadrado preto. Chris era do tipo “tênis, calça Jeans e camisa pólo”.

        Saiu do banho, vestiu a roupa, pegou a bíblia e os folhetos, conversou um pouco com a mãe sobre os acontecimentos novos na igreja, sobre o que aprendeu do “poder da palavra”. A mãe não entendeu muito, mas o pouco que entendeu acabou por achar meio exagerado tal ensinamento. Chris pediu licença ao sair da mesa. Escovou novamente o dente e saindo pela porta despedindo-se da mãe. A consulta fora marcada para as 9 da manhã em um posto público do bairro onde morava.

        Fechando o portão do quintal, caminhou na calçada olhando para o relógio, viu que eram 7:10 da manhã. Estava fazendo “sol de rachar” e isso o incomodava, preferia o inverno. Um pouco mais a frente se encontravam uns moleques sentados com bola na mão, aparentemente esperando outros para jogar futebol. Estava em época de férias escolares. Os meninos caçoaram com o peculiar falar arrastado do carioca:

_ Aí Christian, vai onde vestido deste jeito? Fazer exame de fezes ou o seu ginecologista é garanhão?- disse o menino quicando a bola de futebol acompanhado da gargalhada dos outros.

_ Pior é que vou ao médico mesmo. – retrucou Chris sem dar muita atenção.

       Ao passar em frente ao portão de Pedro, tentou resistir para não olhar, pois não queria que Pedro o pegasse olhando. Chris sentia falta do amigo. Chris não resistiu, olhou de soslaio. Pedro estava sentado em sua pequena varando de muro baixo lendo um livro. Sentiu que tinha alguém olhando, percebeu que era Chris. Pedro animado, feliz por ter visto Chris, cumprimentou com um tchau. Ficou sem reposta, Chris olhou para baixo, duvidando se respondia ou não, entretanto apertou o passo.

       Passado alguns quarteirões logo chegando a avenida principal de sue bairro, avenida muito movimentada, porém não era grande o bastante, por isso sempre em horário de pico o transito simplesmente, sim, enfim, Chris olhou assustado. Um alvoroço, muita gente, muito sangue no muro branco de um conhecido que mora na esquina. O aglomerado não o deixava ver quem estava ali, quem provavelmente havia morrido. Preocupado, se enfiou no meio da aglomeração, ouviu chegando o carro da polícia identificando pela sirene irritante. Driblou a confusão de curiosos, feirantes, camelôs, moradores e trabalhadores que ali estavam. Chegou ao local. Viu cinco corpos no chão. Entrou em choque, segurando o choro colocou a mão na cabeça. Gelou, sentiu com estando baixando a pressão. Ficou desesperado, sentiu o arrepio correndo pela espinha. Eram cinco meninos com faixa-etária entre os 12 a 15 anos, estavam com meia de futebol, chuteiras furadas em farrapos, a bola com um grande furo, murcha, em uma parte do chão isolada dos meninos, camisas furadas de velhice e também com furos de balas.



      Chris Enio não sabia o que fazer. Correu-lhe as lágrimas ao queixo até pingar no chão em cima do sangue. Pensou em Deus. Tudo, todos os sentimentos ocorriam muito rápido. Pensou em Deus, pensou em ressurreição que vira na bíblia. Sentia que não tinha fé. Sentiu uma mão em seu ombro, ao virar percebeu que era Pedro. Chris começou a falar:

_ Olha Pedro, esses moleques, vimos eles ainda bebês. – disse Chris desesperado sentindo a mão de Pedro no ombro o confortando.

       Pedro lhe disse:

_ Eu fico aqui e aviso o pessoal. Olha aí, a ambulância está chegando. Sua mãe falou que você vai ao médico, se não for agora só irá conseguir vaga depois de três meses, melhor ir, peço para sua mãe te dar notícias pelo celular...

   De surpresa ouviram um grito agudo, alto, angustiante. Um choro intenso, pouco ouvido, apenas em casos assim. Grito de comover e fazer doer o coração de qualquer um. Essa era mãe de dois meninos que ali se encontravam.

[..]

To be continued - Continua

Lucas Gonzaga

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