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9 de mai de 2011

O que sonhei ser e não fui

              

        Aos sete anos, projetava que minha vida estaria resolvida aos 37.
Administraria somente a felicidade. Dei o prazo de três décadas
para não me preocupar. Talvez o paraíso naquela época fosse
cabular temas, não ir à escola, muito menos ser submetido às
provas. Não mirabolava encargos, superações e dificuldades. Até
porque a vida adulta é distante, uma velhice para criança.

       Recordo a atmosfera do que imaginava. A sensação de
alívio do futuro. A felicidade seria estável e permanente. Era
uma fórmula que deveria encontrar e adotá-la no restante
dos dias. Algo como a receita de galinha recheada da avó.
Uma vez feito o prato, ele se repetiria eternamente.

       Não enxergava o estado provisório e fugaz do sentimento,
um clarão que nos ajuda a suportar depois o escuro. Hoje
entendo que a felicidade é rara, relampeia, olhamos onde
estão nossas coisas e seguimos tateando com mais facilidade.

      Não sou sinônimo de sucesso. Moro provisoriamente
na residência materna, tenho duas separações, sequer
possuo algum imóvel. Deixei duas vidas, duas casas,
tudo que construí e acumulei ficou para trás. Caso não
tivesse me divorciado, estaria confortável e poderia
investir na Bolsa de Valores. Guardo a biblioteca em
centenas de caixas na garagem, não há como consultar
os livros. Os rendimentos são subjetivos, provados pelos
extratos bancários.

        Mas não pretendo ser diferente, não entrarei no
apartamento de amigos ricos e fingirei igualdade. Não
peço emprestados outros mundos para aliviar o meu.
Estou contaminado das manias para mudar.

       Apesar da fragilidade, não me coloco como um coitado,
uma vítima de decisões erradas. A cada mês, sou obrigado
a inventar um salário. É assustador e delicioso.
Eu perco meu emprego todos os dias. Enviúvo compromissos e
caso com expectativas. A rotina não é interrompida por
finais de semana. Domingo e terça-feira são iguais. Não
me formei em medicina para justificar plantões, ocupo a
família com minhas desocupações.
      
        Espumo águas paradas. Qualquer desastre não é
trágico. Qualquer desmemória não é o fim. Sou rápido o
suficiente para me digitar de novo. Desde o início. Não
desmereço as frases porque já foram escritas.

        Os filhos não se acostumaram com a atmosfera instável,
acham que sofro à toa e que me alegro ainda mais à toa.
A namorada tenta esclarecer as extravagâncias. Na casa
dela, não consigo relaxar. Passo aspirador, lustro mesas,
lavo a louça e dobro as roupas para brincar que é minha casa.
Ela enlouquece, mas sua ternura atrapalha a raiva. Sinto
saudade de varrer a rua. Saudade não é arrependimento.

       Há gente que se gaba em dizer que cumpriu o sonho
dos sete anos. Seguiram à risca a ambição de pequenos.

       Eu fico com dó da coerência. Desse jogador de futebol
que não admitiu a confusão vocacional. Dessa bailarina
que não desobedeceu ao contexto. Desse cantor que não
reparou na encruzilhada.

      Nossa cultura valoriza demais o planejamento. Como
se a linha reta fosse uma virtude.

      Eu não fui o que minha infância traçou. Aquilo era fantasia.
O que sei fazer é recomeçar e frustrar condicionamentos.

       Para um escritor, seria uma enorme falta de criatividade
ser o que imaginei quando criança.

(CARPINEJAR, Fabrício. Mulher perdigueira: crônicas.
Rio de Janeiro: Bertrand Brasil, 2010.)

Leiam o blog do Carpinejar aqui: http://carpinejar.blogspot.com/2010/01/o-que-sonhei-ser-e-nao-fui.html

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