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11 de fev de 2011

Deus nos livre de um Brasil evangélico - Ricardo Gondim

                                     
                                          
      Começo este texto com uns 15 anos de atraso. Eu explico. Nos tempos em que outdoors eram permitidos em São Paulo, alguém pagou uma fortuna para espalhar vários deles, em avenidas, com a mensagem: “São Paulo é do Senhor Jesus. Povo de Deus, declare isso”.

        Rumino o recado desde então. Represei qualquer reação, mas hoje, por algum motivo, abriu-se uma fresta em uma comporta de minha alma. Preciso escrever sobre o meu pavor de ver o Brasil tornar-se evangélico. A mensagem subliminar da grande placa, para quem conhece a cultura do movimento, era de que os evangélicos sonham com o dia quando a cidade, o estado, o país se converterem em massa e a terra dos tupiniquins virar num país legitimamente evangélico.

        Quando afirmo que o sonho é que impere o movimento evangélico, não me refiro ao cristianismo, mas a esse subgrupo do cristianismo e do protestantismo conhecido como Movimento Evangélico. E a esse movimento não interessa que haja um veloz crescimento entre católicos ou que ortodoxos se alastrem. Para “ser do Senhor Jesus”, o Brasil tem que virar "crente", com a cara dos evangélicos. (acabo de bater três vezes na madeira).

        Avanços numéricos de evangélicos em algumas áreas já dão uma boa ideia de como seria desastroso se acontecesse essa tal levedação radical do Brasil.

        Imagino uma Genebra brasileira e tremo. Sei de grupos que anseiam por um puritanismo moreno. Mas, como os novos puritanos tratariam Ney Matogrosso, Caetano Veloso, Maria Gadu? Não gosto de pensar no destino de poesias sensuais como “Carinhoso” do Pixinguinha ou “Tatuagem” do Chico. Será que prevaleceriam as paupérrimas poesias do cancioneiro gospel? As rádios tocariam sem parar “Vou buscar o que é meu”, “Rompendo em Fé”?

       Uma história minimamente parecida com a dos puritanos provocaria, estou certo, um cerco aos boêmios. Novos Torquemadas seriam implacáveis e perderíamos todo o acervo do Vinicius de Moraes. Quem, entre puritanos, carimbaria a poesia de um ateu como Carlos Drummond de Andrade?

        Como ficaria a Universidade em um Brasil dominado por evangélicos? Os chanceleres denominacionais cresceriam, como verdadeiros fiscais, para que se desqualificasse o alucinado Charles Darwin. Facilmente se restabeleceria o criacionismo como disciplina obrigatória em faculdades de medicina, biologia, veterinária. Nietzsche jazeria na categoria dos hereges loucos e Derridá nunca teria uma tradução para o português.

        Mozart, Gauguin, Michelangelo, Picasso? No máximo, pesquisados como desajustados para ganharem o rótulo de loucos, pederastas, hereges.

         Um Brasil evangélico não teria folclore. Acabaria o Bumba-meu-boi, o Frevo, o Vatapá. As churrascarias não seriam barulhentas. O futebol morreria. Todos seriam proibidos de ir ao estádio ou de ligar a televisão no domingo. E o racha, a famosa pelada, de várzea aconteceria quando?
Um Brasil evangélico significaria que o fisiologismo político prevaleceu; basta uma espiada no histórico de Suas Excelências nas Câmaras, Assembleias e Gabinetes para saber que isso aconteceria.

         Um Brasil evangélico significaria o triunfo do “american way of life”, já que muito do que se entende por espiritualidade e moralidade não passa de cópia malfeita da cultura do Norte. Um Brasil evangélico acirraria o preconceito contra a Igreja Católica e viria a criar uma elite religiosa, os ungidos, mais perversa que a dos aiatolás iranianos.

        Cada vez que um evangélico critica a Rede Globo eu me flagro a perguntar: Como seria uma emissora liderada por eles? Adianto a resposta: insípida, brega, chata, horrorosa, irritante.
Prefiro, sem pestanejar, textos do Gabriel Garcia Márquez, do Mia Couto, do Victor Hugo, do Fernando Moraes, do João Ubaldo Ribeiro, do Jorge Amado a qualquer livro da série “Deixados para Trás” ou do Max Lucado.

        Toda a teocracia se tornará totalitária, toda a tentativa de homogeneizar a cultura, obscurantista e todo o esforço de higienizar os costumes, moralista.

O projeto cristão visa preparar para a vida. Cristo não pretendeu anular os costumes dos povos não-judeus. Daí ele dizer que a fé de um centurião adorador de ídolos era singular; e entre seus criteriosos pares ninguém tinha uma espiritualidade digna de elogio como aquele soldado que cuidou do escravo.

       Levar a boa notícia não significa exportar uma cultura, criar um dialeto, forçar uma ética. Evangelizar é anunciar que todos podem continuar a costurar, compor, escrever, brincar, encenar, praticar a justiça e criar meios de solidariedade; Deus não é rival da liberdade humana, mas seu maior incentivador.

       Portanto, Deus nos livre de um Brasil evangélico.

Soli Deo Gloria
7-02-11

http://www.ricardogondim.com.br/Artigos/artigos.info.asp?tp=65&sg=0&id=2400

9 Comentários:

Anônimo disse...

Pensamento imbecil esse seu meu irmão. Pois saiba que você esta misturando fanatismo religioso ao bom nome dos "EVANGÉLICOS"; afinal, até mesmo os Católicos são bons e exímios Evangélicos...ou será que não se prega o Evangélico na Igreja Católica? Até mesmo no centro espirita existe evangélico. Seu silêncio, com certeza não denunciaria sua tamanha ignorância para com o assunto e total falta de conhecimento da causa. Mas não tem problema, os Verdadeiros Evangélicos saberão perdoar tua gafe. Saiba meu caro, que os Verdadeiros evangélicos, saberá sempre, respeitar as pessoas e suas escolhas, afinal, o livre arbítrio é de origem Divina. Sugiro que você pesquise a respeito desse povo Cristão, que através dos séculos vem fazendo o bem à humanidade. Começe pesquisando a partir dos Evangélios, dos Atos Apostólicos, de Constantino, Pesquise a respeito dos Cristãos Romanos, Luteranos, Batistas, Adventistas, Metodistas, enfim...Estude antes de falar sobre o assunto.

Preso por fora disse...

Meu caro anônimo, tenho origem no protestantismo, admiro vertentes católicas e protestantes e todo meu estudo teológico e sociológico me dá lucidez para separar o sentido da palavra, isto é, sua etimologia do sentido sociológico do termo. Sociologicamente existe um grupo que chamamos de evangélicos. Por que é constatado isto sociologicamente? Simples, por mais que sejam de denominações diferentes, tem certos pontos em comum. 2 deles muito significativos são o ascetismo e o sectarismo muito ao contrário do que Cristo ensina. Cristo, pelo prazer de comer e saborear o que vem da natureza, foi chamado de beberrão e glutão. Gostava d’um bom vinho e de comida, o que faz por dissipar a idéia de ascetismo. Uma característica que aniquila a idéia de sectarismo é a indiferença em se aproximar dos que são considerados escórias da sociedade. Se Evangélicos o pegassem conversando a sós com uma prostituta, seria provável que ele Cristo fosse excluído do quadro de membros do clubinho gospel!

Portanto, meu caro anônimo, repare e tente perceber que há um grupo sociológico e isso não sou eu que digo, quem diz são os mestres e doutores da Ciência da Religião, dentre eles o Mestre Ricardo Gondim, que foi o Pastor Assembleiano que escreveu este texto acima, e também encontramos o orientador deste pastor citado: o teólogo Doutor Católico Jung Mo Sung.

Viu? Um católico e um dito "Evangélico" unidos.

No mais, concordo com você, caro anônimo, que á evangélicos, isto é, filhos de Deus em tudo quanto é lugar: na umbanda, no budismo, no candomblé, no islamismo, entre protestantes e evangélicos, católicos, etc.

Te indico este texto que fiz faz um tempo:

http://presoporfora.blogspot.com/2011/08/jesus-e-sua-parabola-do-bom-samaritano.html

Lucas Gonzaga.

Leonardo disse...

Caro Lucas, acho q o "anonimo" não leu, alias se leu não compreendeu os últimos parágrafos;

"Levar a boa notícia não significa exportar uma cultura, criar um dialeto, forçar uma ética. Evangelizar é anunciar que todos podem continuar a costurar, compor, escrever, brincar, encenar, praticar a justiça e criar meios de solidariedade; Deus não é rival da liberdade humana, mas seu maior incentivador.

Portanto, Deus nos livre de um Brasil evangélico."

No mais, um belo artigo para reflexão evangélica...

Leo RCP

Laly disse...

É muito pouco inteligente dizer que todos os crentes são aiatolás de Jesus e vivem isolados de tudo.
Falar que as manifestações culturais seriam reprimidas, q os pensadores que norteiam diversos estudos acadêmicos (inclusive os meus)entre outros citados aqui não me parece possível. vcs devem realmente ter muito medo do estado laico virar teocracia novamente... vc crê q nós sejamos tão influentes a esse ponto?

logo, gastei meu tempo no velho clichê ateu de sempre: preconceituoso, generalista, rabugento e raso.

PS: pratico luta, leio literatura nacional e internacional, escuto música secular ou "do mundo" (esqueci q p vcs os evangélicos tem seu proprio dialeto) e vivo minha fé sem desrespeitar meus amigos não-crentes. tudo isso sendo cristã praticante. acho q o estereótipo criado aqui não serve para todos, hein...

Preso por fora disse...

Laly, pelo que entendi você então sociologicamente não se encaixa no Evangelicalismo,talvez seja evangélica no sentido da palavra,mas não sociologicamente. O autor deste texto é pastor e mestre e ciências da religião pela Metodista-São Paulo, tendo como seu orientador o digníssimo professor católico Jung Mo Sung.
Laly, se achou Gondim raso neste texto ( e como não poderia ser visto que é apenas um texto?), dirija-se a uma livraria e compre a tese de mestrado de Gondim, chamado Missão Integral. Link:

http://www.livrariasaraiva.com.br/produto/2854878/missao-integral-uma-nova-identidade-evangelica/

Laly, repare que vc mesmo satiriza que evangélicos tem dialeto próprio, isto é, vcoê os identifica como grupo social. O Pr. Ricardo Gondim neste texto fala de evangélicos e não de cristãos em geral , entende? Abraços!

Laly disse...

na verdade eu satirizei a posição exposta no último parágrafo de q evangélicos querem exportar seu próprio vocabulário padrão e vc q não compreendeu minha sutileza...
sobre o texto/comentários. o autor fica o tempo inteiro cogitando o q aconteceria SE o Brasil virasse um país predominantemente evangélico. me parece muito mais ficção científica q ciência. e, cá entre nós, vc está se valendo mais da notoriedade do autor, do que dando contra-argumentos ao que eu falei. essa postura não me estimulou a comprar o produto sugerido...
e quanto ao q vc disse sobre eu me encaixar sociológicamente no Evangelicalismo quer dizer o que? vcs estão baseando todo o discurso numa única figura de evangélico? a culpa é minha, q estou fora e dentro ao mesmo tempo do padrão? então há somente uma frágil caricatura criada, não se sabe por que influente autor, e o fato dela não se aplicar à totalidade contradiz o tema central? ah, se minha orientadora apenas desconfiasse q eu pensei em fazer algo parecido em meu projeto final...
enfim... sua resposta não mudou nada quanto à minhas impressões, e não é por q faço parte desse povinho gospel, q vai sendo levado na lábia dos televangelistas e pastores por aí (estou usando a ironia novamente, caso vc não compreenda). trabalha no conteúdo, baby!

Preso por fora disse...

1º_ A postura não deveria te estimular a comprar uma obra do autor, usa própria frase de que ele é raso e etc., é que me motivou a mostrar que isso é apenas um texto e por isso de ser "raso", pois se fosse profundo o texto fugiria da proposta de causar reflexão... simplesmente repsonderia tudo, o que não era a intensão.

Lyla, é econselhavle que estude o como há a configuração social, como se identifica um grupo social e os pilares do que os classifica como grupo social, pode ler alguma obra de Lucien Goldmann.

Lyla, se você não faz parte deste povinho gospel ( sua afirmação é uma mentira, então você não é SOCIOLOGICAMENTE Evangélica. Talvez seja evangélica no sentido da palavra, mas sociologicamente pelo que entendi, você não é participante da cultura do povinho gospel.

Obs.: Veja as estatísticas e verá que este tal povinho gospel que cita, não é um povinho, mas é enorme e crescente a cada dia.

Laly disse...

então nao diga que OS evangélicos são o mal do século, pois há gente com cultura e fé e isso é possível.
sou apenas contra o generalismo.
e outra, não tenho nada contra os ateus. meu muso inspirador questionava os santos da igreja e se empenhava em conhecer e ouvir os que estavam longe dela.
abç

Preso por fora disse...

Ninguém disse que osevangélicos são o mal do século. Eu não falei de ateu até agora. Gosto de muitos santos católicos. Se alguém que se diz evangelico e não vive a takl cultura, talvez como você seja evangélcio no sentido da palavra e não sociologicamente evangélico.

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